É assim que te deixo…

Quando chegas, chegas sempre como se fosse a primeira vez, trazes na tua mão fechada todos os sonhos que me fazem adormecer. Mas eu não te amo mais. Aqui não moram sentimentos. Já nem sei o que é amar.

E por isso, quando chegas, com esse sorriso radioso e esses olhos hipnotizantes repletos de histórias de encantar, digo-te para voltares depois, porque sei que é apenas mais um dia em que vens sem autorização, disposto a roubares-me do meu mundo por míseros momento, pois a vida é feita de momentos, enfeitados de sentimentos que fingimos conhecer.

Chegas com toda a violência que tens, agarras-me e nunca me magoas. Mesmo quando os teus olhos brilham de raiva e as tuas mãos perdem-se no meu pescoço, e os teus lábios percorrem a minha pele. Não sinto nada.

Chegas e eu deixo-te brincar comigo. Finges que és principe e me vens salvar de uma bruxa ou de um dragão. Não há cavalos alados nem banda sonora na nossa história. Apenas tu e eu e este amor doentio. Tu e essa brincadeira louca de amar-me sem amor. Eu e este desejo de amar-te e mandar-te embora, porque eu quero ver-te cair no chão, meu amor.

Não sei qual de nós mente melhor. Na primeira página do nosso conto o futuro parecia brilhante, mas até os anjos tem os seus planos perversos.

Há vergonha nas nossas vozes, vidros espalhados pelo chão deste campo de batalha, que outrora foi lar. Tu alimentas-me com promessas vazias e palavras violentas e tudo isso mantém-me satisfeita.

Finges-me tua e eu finjo que te amo, depois viro-te as costas e deixo-te exausto nessa cama, enquanto fumo o meu cigarro com a blusa de seda, sentada no chão da varanda.

Ouço-te resmungar que vais embora de novo e eu mesma te abro a porta.

Deixo-te assim desse jeito, porque tenho a certeza de que voltarás amanhã. É só por saber que voltas. É assim que te deixo quando sei que não te deixo para sempre.

PORLetícia Brito
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