E, aguardo eu, tão ansiosamente, uma nova tempestade!

Não te quero incomodar. No fundo, acho que vou fazê-lo. Mas fico com cara de parvo a olhar para aquilo que partilhámos e que, agora, começa a perder-se.

Os meus neurónios começam a perder-se, o meu coração perdido está, a minha própria roupa também se vai perdendo e tudo aquilo o que estava prestes a encontrar-se, ficou, hoje, perdido.

Não é que me incomode ver-te feliz. Não me incomoda, de todo. Mas incomoda-me ver-te partir. Ver o teu sorrir desvanecer no horizonte, o teu a olhar ficar pouco nítido e as tuas mãos cada vez mais soltas de mim.

Não é que me incomode ver-te com outra pessoa. Isso não incomoda, certamente. Mas incomoda-me ver-te com essas mãos, que já foram tão minhas e que já me acolheram nos dias de tempestade, acolherem outro alguém. Ver esse sorriso desvanecido de mim, crescendo, significativamente, perto de outra pessoa. Esse olhar cada vez mais nítido perto de alguém, que não eu, e as tuas mãos presas a outro corpo. Um corpo que não me pertence.

Acho que nada daquilo que te faz feliz pode, na verdade, incomodar-me. Mas aquilo que te deixa em êxtase, sem mim, incomoda-me profundamente. É como ter uma faca, deveras afiada que, num segundo, nos trespassa as costas e, num outro segundo, nos é retirada com a maior calmaria para não nos magoar e para não alongar mais a ferida.

Não és tu que me incomodas. É a tua capacidade de seres feliz com alguém que não me pertence. Alguém que não eu.

Não és tu que me incomodas. Não és tu quem me trespassa a faca nas costas, como se me estivesse prestes a matar. Mas és tu que ma tiras com a maior calmaria, sendo que, no fundo, ainda tens medo de me magoar.

Não é que o teu sorriso me incomode. Quem me incomoda é essa pessoa, se assim lhe devo chamar, que agora te transmite felicidade. Que me roubou o lugar, sem dó nem piedade. Que me apunhalou pelas costas quando eu estava no momento mais frágil da minha vida. Que me roubou a alma, a vida e a vontade.

É isso que me incomoda. É isso que me fragiliza. É isso que me sufoca.
Não me incomoda estares sem mim. Nunca incomodou. Incomoda-me, seriamente, precisar de ti, para me dares a mão nas caminhadas mais longas da minha vida e saber que não podes fazê-lo. Saber que tens as mãos ocupadas. Saber que essas mãos não me vão guiar aos caminhos certos. Saber que tu, largaste as tuas mãos de mim e que agora é como se me dissesses: “vais ter de ir sem mim!”.

Não me incomoda ir sem ti. Confia em mim quando digo isto. Incomoda-me, sim, saber que vou sem ti porque não estás mais comigo. Incomoda-me saber que vou sem ti, não desta vez, mas para o resto da minha vida.

Olha, acho que até vou deixar de me incomodar. Talvez um dia te volte a encontrar numa esquina, num café, numa viagem ou, até mesmo, numa simples rede social. Talvez um dia tudo se volte a repetir. Talvez um dia tudo aconteça, tão naturalmente, como há uns tempos aconteceu. Talvez um dia já não me incomode mais.

Quando deixar de me incomodar, é porque me devolveste a alma, a vida e a vontade. É porque voltaste a dar-me a mão. É porque o teu sorriso ficou novamente, marcado, a meu lado. É porque o teu olhar brilha ainda mais que antes. É porque já não tenho medo das tempestades, porque tenho os teus braços para me protegerem.
E, aguardo eu, tão ansiosamente, uma nova tempestade.

PORRúben Pinhal
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