E a ‘fracota’ se fez Forte!

Decidi escrever isto no dia em que deixei que a verdade fugisse, mesmo por entre os meus dedos. Tentei por muito tempo ser forte o suficiente para sufocar e esconder o que sinto por ti. Eu nunca quis que as coisas chegassem onde chegaram, sabes? No dia em que tu finalmente ganhaste coragem para falar comigo sobre o assunto, no dia em que me esfregaste na cara que sabias que o que eu sentia seria mais do que aquilo que tu me podias dar, eu não chorei. Eu ouvi, apenas ouvi, nada disse.

Quando saíste por aquela porta pensei que me ia desmoronar por completo, que aqui a ‘fracota’ que se faz de forte, ia finalmente cair em si, e perceber que tinha de acabar com todas as esperanças que ainda sobreviviam dentro dela. Mas não, senti o maior alívio que se possa imaginar. E pensei que então nada fazia sentido, e que não podia gostar mesmo de ti, porque se isso fosse verdade, eu não aguentaria e teria ficado mal. Não sei o que me deu, talvez era só mais uma das minhas tentativas de me enganar a mim própria, e tão boa que sou nisso que cheguei mesmo a acreditar.

Escrevi-te aquela mensagem, onde apenas apareciam palavras de uma adulta ciente do que queria da vida, e que estava finalmente pronta para pôr os pontos nos i’s. Mas não, tudo não passou no fundo de uma forma de eu não estragar tudo o que ainda havia para estragar, a nossa amizade, ou aquilo que restava dela.

Eu sei que até tu chegaste a acreditar naquilo que escrevi, e tentaste voltar a ser normal comigo. Mas sabes uma coisa? Tu nunca voltaste a ser normal comigo.

Os dias passaram, e continuaram a passar, e eu tolinha continuava de venda nos olhos, e com o coração fechado numa caixa, a achar que finalmente me tinha conseguido enganar a mim, a ti e a todos os outros. Mas restou pouco tempo até que soubesse que tu sim, tinhas avançado (ou voltado atrás) com a tua vida, e eu caí sobre os meus próprios pés. Passei-me. Que teria ela a mais do que eu? Que teria ela que te fizesse voltar vezes e vezes sem conta? Não sei, nunca cheguei a perceber e talvez não o venha mesmo a saber.

Pensei, vê lá, que era ela e apenas ela a razão de tudo. E conformei-me, sabes, conformei-me que se tantas vezes voltavas para ela seria então ela quem te põe bem, feliz. E deixei-me ir. Uns dias mais difíceis que os outros. É claro. Mas até tu sabes como às vezes estas coisas são complicadas de gerir. Tenho a certeza.

Foi então que eu, tentando manter a moral, a minha própria moral, fugindo daquilo que atrás de mim corria, descobri aquilo. Não dormi nessa noite, nem nas noites seguintes. Sentia nojo, como foras tu capaz daquilo? Como fora essa outra pessoa, por quem eu tinha a mínima consideração, capaz de fazer o que fez? Não tinha fome, mas comia. E tudo o que comia saía. Eu não queria, juro que não. Mas o nojo que sentia era maior, cada vez maior, e tudo aquilo, as imagens (que eu nunca vi, mas se criavam dentro de mim) não me saíam da cabeça. Era ela, eras tu, eram os sorrisinhos dela para mim como se não tivesse feito nada. Só conseguia sentir nojo. Nojo.

Aquilo que se tinha então criado dentro de mim não era tristeza, nem mágoa, nem mesmo desilusão. Quantas e quantas vezes não tinha já eu pensado que isso poderia acontecer? Muitas. Mesmo muitas. Mas tentava sempre esquecer o assunto. Tu não eras capaz. Ela não era capaz. Mas foi. Mas foram os dois capazes.

Eu sabia que quando a visse as coisas não iam correr bem. Mas quando nos encontrámos, perdi a voz. Paralisei. Não fui capaz de dizer nada. Nem sequer uma palavra. Sorri. Como sorriem as pessoas que foram educadas a sorrir para os problemas da vida, sem que eles notassem que não estava tudo bem. E voltei a sorrir. Ela desapareceu, e eu chorei. Chorei como quem está desiludida de si própria, como quem já perdeu o orgulho, como quem já nada é capaz de fazer. Ela voltou. Desta vez não houve sorrisos, só lágrimas. Não consegui pará-las. E ela viu. Ouviu o que tinha a ouvir, mesmo que nada tenha saído da minha boca. Gritou o meu nome tantas vezes, que eu só tive coragem de levantar a cabeça e dizer: “Diz.” Mas ela nada disse. Só tive coragem de olhar nos olhos dela, ainda a chorar, sorrir como quem sorri a quem tem pena. E fugir. Fugir.

J.