Eu sou o Doente Mental, mas o Louco és Tu – Descobrindo a POC!

O meu pai telefonou-me na outra manha enquanto eu trabalhava. «A tua gata morreu». Tive um ataque de ansiedade no meio do escritório. Comecei a chorar, a tremer do bico dos pés à ponta dos meus longos cabelos castanhos, o coração palpitou a 300 km/hora.

Alguns dos meus colegas retiraram-se para a sala do lado para comentarem entre si e rirem um pouco. «Que inocente, só porque a gata morreu». Enquanto isso o meu chefe abraçou-me e acalmou-me, deu-me um copo de água com açúcar e assim passei o resto da manha até à hora do almoço. Saí por entre aqueles asquerosos que fugiram de mim, com a cabeça erguida e resquícios de lágrimas na minha face morena.

Tenho POC (Perturbação Obsessivo-Compulsiva), também associada à Depressão. Sabem o que é? O Google irá assustar-vos, então eu passo a explicar.

Muitas pessoas experimentam alguma vez na vida um pensamento de tipo obsessivo ou comportamento compulsivo, mas, no caso da Perturbação Obsessivo-Compulsiva estes são intensos, persistentes, desagradáveis e interferem com as atividades diárias de quem sofre com isto. O que a caracteriza são as obsessões e as compulsões.

Obsessões são ideias, pensamentos, impulsos que não queremos ter, mas não controlamos e causam ansiedade significativa. Por exemplo, a dúvida persistente se fechamos ou não uma porta, se a roupa está limpa, a necessidade de nos vermos trinta vezes ao espelho antes de sairmos de casa para termos a certeza de que estamos arrumados, a ideia de que precisamos escolher a roupa para o dia seguinte, trocando de roupa vezes sem conta, a preocupação se as mãos estão limpas após as termos lavado, a necessidade de contar objetos ou realizar tarefas segundo uma determinada ordem ou impulsos, como por exemplo, magoar, ferir alguém, de utilizar facas ou outros objetos perigosos com pessoas próximas, entre muitos.

As compulsões são comportamentos, ações, pensamentos, em resposta ao mal-estar causado pelas obsessões. Por exemplo, o pensamento obsessivo repetido de que a roupa que escolhemos é feia, surge a compulsão de abrir o armário e retirar todas as roupas até aliviar o mal-estar. Isso pode acontecer várias dezenas de vezes por dia.

São também exemplos as verificações repetidas se os objetos estão arrumados por determinada ordem ou tomar banho por sequências ou partes, tocar várias vezes numa superfície, rezar ou usar palavras para anular outras ideias. Todos estes rituais servem para aliviar os pensamentos obsessivos.

A pessoa é invadida pela ideia ou pensamento obsessivo e fica com tanto mal-estar que se vê impulsionada para executar ou pensar algo que a alivie. Pode ficar totalmente dominada pelas obsessões e compulsões repetindo-se incessantemente.

Em geral, as pessoas que sofrem de perturbação obsessivo-compulsiva reconhecem a irracionalidade da situação, mas escondem-se, defendem-se da crítica ou observação dos outros ou organizam e escolhem as atividades diárias em função das obsessões, mascarando o problema, apesar do sofrimento associado em que se encontram.

Outro aspeto comum é que a pessoa pode ter comportamentos de a que levam a evitar, como não tocar em superfícies que pensa estarem contaminadas, guardar e não usar a roupa que pensam que é feia, deitar objetos ao lixo para se libertarem de uma obsessão, evitar a proximidade de pessoas, comida, se forem alvo de uma ideia obsessiva.
A grande dificuldade está em conseguir resistir à compulsão, pois ao evitá-la, o mal-estar aumenta e a pessoa, de um modo geral, cede. Esta perturbação pode afetar significativamente a vida da pessoa, seja na área pessoal, laboral, doméstica, social ou, até, passar a ocupar o centro das preocupações da pessoa.

É muito importante compreender que são pensamentos e atos involuntários, que a pessoa não deseja ter, e que causam grande angústia. Por este motivo, é frequente a associação desta perturbação com a depressão. A idade de aparecimento é, em geral, a adolescência e início da idade adulta, mas pode também ocorrer na infância.

Bem, depois desta minha alongada explicação. Quero contar-vos a minha história:

Terminei o relacionamento com o meu namorado e entrei numa confusão total. Liguei-lhe trinta vezes de madrugada, enviei-lhe 211 mensagens no espaço de 11 minutos a tratá-lo mal, para logo de seguida ligar cerca de 45 vezes para me desculpar.

Não o fiz propositadamente e fui taxada de louca pelos meus amigos. Fiz-lo porque senti uma vontade incontrolável de solucionar o problema que se gerou na minha cabeça quando ditamos o fim à relação. Fiz-lo porque precisava dele, nem que fosse para discutir. Precisava. Preciso.

Tentei colocar termo à minha vida incontáveis vezes, dizem que sou doida.

Eu quero viver, desengane-se quem pensa o contrário. Eu quero viver: mas esta doença rouba-me a vida todos os dias de maneiras inimagináveis.

Então sucessivamente tenho ideias sobre como matar-me: veneno no cereais, uma corda no pescoço, uma carteira de comprimidos, um corte profundo nos pulsos.

«Onde está a Marta?», perguntam frequentemente. E alguém responde «Está internada, tomou uma dezena de comprimidos».

«Ela é doida, tanta coisa porque o namorado a deixou? Valha-me Deus, tanta boa gente a morrer e essa a querer chamar a atenção da pior forma»

«A Marta devia era sair com os amigos, não faltam homens, esta juventude está perdida»

«Só quer chamar a atenção e depois esconde-se quando lhe dizem as verdades, ela que ganhe vergonha e juízo»

POC, meus caros. É uma doença mental também associada à depressão.

Recentemente houve o Dia Mundial da Luta Contra o Cancro e aqui a Marta pergunta-vos: Porque ainda não inventaram o Dia da Luta Contra a Depressão?

Sem querer ferir suscetibilidades ou menosprezar os doentes cancerígenos, quero apenas dizer que é triste que todos se compadeçam de quem sofre com cancro enquanto os doentes mentais são rotulados de “loucos”, “imbecis”, “idiotas que querem chamar a atenção”. Devem pensar que isso nos faz sentir melhor.

O que vocês imaginam para o vosso futuro? Trabalho? Casa? Família? O problema é que nós olhamos para o futuro sem esperança e sem esperança ninguém vive. Vem viver na pele de um doente mental, de alguém com POC, Esquizofrenia, Depressão. Garanto-te não aguentavas um único dia.

Infelizmente ser doente mental tornou-se um comércio comum no nosso país e é horrível ver que pessoas que sofrem com transtornos psicológicos são deixados à sua própria sorte.

Pois é, eu sou o doente mental – mas tu que me julgas sem viveres na minha pele, tu que julgas todos os outros como eu?, Sim tu! – és o louco.