Dizia-te que não acreditava no amor…

O maior cego é aquele que não quer ver. Abrir os olhos talvez seja a tarefa mais difícil que a vida nos presenteou. Quando digo: “Acabei de perder o amor da minha vida” as pessoas tomam isso como fantástico, pouco trágico! Afinal quantas vezes já ouviram isto?! Quantas vezes, já o disseram? Bom, a mim é a primeira vez que fico sem chão e mereço tudo a que tenho direito!

Quem quer ver realmente o mundo com todos os seus tons, com todas as suas curvas e contracurvas? Eu não, prefiro embebedar-me de sonhos e imaginar que tudo poderá ser imperfeitamente perfeito a teu lado, meu amor. Aquela bebedeira de sonhos extra que tomo todas as noites, quando já cansada, esqueço-me de pensar em ti. Quando já cansada, romanticamente penso que estou acordada no teu sonho.

Davas-me a mão como se me beijasses, apertadinha e molhada sentia-a contra a tua. Uns suores frios me percorrem e sei que estou cegamente apaixonada por ti. És aquele cavalheiro que me abre a porta e me deixa passar em primeiro lugar. Leste os manuais de cortesia antes mesmo de começares a falar. Falas muito pouco mas eu costumo ter saliva para os dois…

Tínhamos muito para fazer mas…Costumávamos ouvir música baixa no banco de trás do teu Mercedes. Ou melhor, devo corrigir, costumavas ouvir…Eu era tão cega por ti! Contemplava cada milímetro teu e tinha de me morder, sem que te apercebesses, para ter a certeza que não estava a sonhar e tinha realmente um príncipe só para mim. Dizias que o amor era cego porque não eras esse gato nem esse príncipe que todos os dias alimentava com a minha paixão tórrida.

Chamava-te mentiroso, não só eras isso como eras muito mais do que um dia esperava! Já te disse não havia nada mais belo que o teu sorriso, mesmo que fosse ligeiramente desalinhado. Nunca vi tal defeito.

À noite encostavas-te mas nunca de mais, tiravas-me o cabelo da cara e em parcas palavras pedias que fosse só tua. Desafiavas-me mas depois faltava-te a corda e eu, sempre tão apaixonadamente satisfeita!

Trocámos juras de sangue e suor, nunca mais vou deixar de ver aquela cama! Estávamos a preparar o caminho para um grande final. O vestido já estava pintado na minha mente, o teu gosto já eu conhecia… Faltou a visão, contudo….

Faltou essa evolução, essas juras cumpridas, e a máxima que te sussurrava: ama-me quando menos merecer porque é quando mais preciso! O amor acaba quando abrimos os olhos.

Já não temos a rede que nos ampara as quedas, já não temos a ilusão ou o sonho que anestesiam um tímido futuro que desabrocha diante da nossa tímida retina. Não obstante, ficam as memórias de era uma vez… dois apaixonados, loucos e jovens…Que ao final da tarde decidiram dar as mãos, assim de um só impulso.

Contigo aprendi que tudo era possível de olhos fechados e sorriso nos lábios. Cegaste-me que ainda hoje ia atrás de ti, independentemente de tudo o resto. Ensinaste-me a mandar lixar a vida e eu agora não quero outra coisa. Mandar lixar tudo e todos é o que me apetece e se me apetece faço.

Não obstante, o tempo passa e acho-me perdida, na minha cama, em mais um sonho incolor… Lembrar-te com saudade é dizer-te de novo adeus.

Desprender-me de ti, é desprender-me de mim… A maior parte dos idiotas amam com os olhos…Talvez e por isso nunca me compreendeste! Sempre te amei de olhos fechados e sabia-te de cor. Despia-me em cada palavra que te dizia e mesmo assim pedias-me que tirasse a roupa, ó diabos!

Termino os meus dias naquela cama sagrada sem conseguir respirar, não sabia o que se passava em meu redor pois no meu casulo me fechava. Dormia então, dormia mais para sonhar. Sonhar que vivíamos felizes de novo e os meus olhos adormeciam embalados pela sua água salgada. Acordava sobressaltada, e a qualquer momento parecia que ia ter um ataque cardíaco. Depois, ficava sem forças e parava. Ficava como que hipnotizada.

Em todos esses não momentos, o volume estava no máximo e a tua voz ocupava o quarto. De olhos fechados escutava a tua canção. Quem me dera que nunca os tivéssemos aberto!

O teu perfume… Esse jamais sairá de mim e um dia haveria de se perder em mim. Não deixo, porém de olhar quando sinto esse perfume…Quem sabe se um dia virá o teu rosto junto…. Até um próximo encontro alma gémea. Abriste-me os olhos, mas os teus jamais se fecharão!

Concluíndo, se o amor é cego? Não. Mas cega-nos. Transcendemo-nos, e eu fiz o que jamais imaginaria fazer de olhos abertos, senti o que jamais se observará a olho nú. Se valeu a pena? Deixou saudade. Se deixou, sim valeu. Agora acredito no amor.