O que dizem os teus olhos?

Naquele final de tarde: quente e electrizante, estávamos os dois de olhos postos no infinito oceano com o sol a pôr-se no horizonte, quando me fizeste a pergunta mais inóspita e inesperada de sempre. Viraste-te para mim, olhaste-me nos olhos, da forma mais intensa e profunda que se possa imaginar – chega a ser difícil descrevê-la –, pegaste-me na mão com o ar mais doce e romântico do mundo; enquanto com a outra te divertias a fazer passar os grãos de areia por entre os teus dedos: longos como a mais exaustiva estrada, masculinos como o homem mais robusto que possa existir, suaves e doces como algodão. E perguntaste-me: “O que dizem os teus olhos?”

Estava à espera de todas as perguntas menos daquela, dizem os mais antigos que os olhos são o espelho da alma e de facto são mesmo, não posso deixar de concordar com essa afirmação; de facto através do olhar podemos saber muita coisa sobre as pessoas que nos rodeiam, sobre quem mais gostamos ou sobre quem apenas vemos como simples conhecidos. Através do olhar revela-se a alma e sente-se o coração, desenha-se o sol e pinta-se o amor de todas as cores, ou apenas de uma única cor só.

A envolvência do momento e da paisagem deixou-me sem palavras para dizer, apenas me sentia plena de amor e tu ficaste surpreendido perante a minha timidez, não sabia mesmo o que dizer: se te amava intensa e loucamente ou se queria ficar ao teu lado para sempre, limitei-me a conjugar o silêncio dos meus olhos com o sorriso dos meus lábios e em câmara lenta acariciaste o meu rosto. Fechei os olhos e aproveitei o momento, podia durar apenas meros segundos; mas para mim o toque teu assemelhava-se à eternidade.

Desde os primórdios da nossa história e daquilo que sempre nos uniu que me lembro de gostares de o fazer, de através das tuas mãos longas, esguias e masculinas sentires os meus contornos, o meu aroma, as minhas definições. Respondi ao teu gesto e deixei-me caminhar também pelos trilhos da tua pele, amei-te lentamente, até os nossos braços envolverem os nossos corpos e serem um prolongamento dos mesmos.

De voz quase impercetível, sussurraste-me: não há amor mais profundo que o amor sentido com o olhar. Olho-te e amo-te. Será que o coração consegue amar tanto e na mesma medida que o olhar?

Beijamo-nos: sôfrega e intensamente e depois de mãos dadas fomos passear à beira-mar aproveitando o cair da noite, fresca e afrodisíaca. Os nossos olhos pareciam querer dizer tudo e ao mesmo tempo pareciam não ter nada para dizer, o brilho era tão translúcido e intenso que conseguia captar a luz própria da lua cheia daquela nossa noite.
Os olhos são sorrisos desinquietos como as ondas do mar bravio, são palavras envergonhadas escondidas no pensamento. São desejo e são paixão sem nada terem que afirmar ou reclamar.

Sem nada o fazer prever, descalçaste-te, pegaste em mim ao colo e entramos mar adentro, pousaste-me suavemente sobre a água fria e sem haver tempo para mais nada, amaste-me ali mesmo: com o coração em desassossego e o olhar inquieto.

Algum tempo depois, regressamos ao areal quase sem fôlego e ficamos ali abraçados e em silêncio. E no silêncio que nos envolvia fizeste-me a mesma pergunta.

– Afinal… O que dizem os teus olhos?

Que te amo e que o amor para ser duradouro e sentido, basta ser escrito com uma simples troca de olhares. E tu amas-me…

PORAna Ribeiro
FONTEEscreViver
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