Disse-me a vida que te perdi!

Não há nada mais doloroso, injusto e distante que o sentimento de perda de alguém que amamos. Alguém que decide partir, que decide deixar-nos, que decide fazer da distância e da saudade um caminho. Uma estrada que por vezes me custa a compreender, que não atenua a dor, que me esvazia, que faz com que todos os dias me perca por aqui e por ali numa busca incessante e infrutífera pela tua presença, pelos teus contornos. Por algo de ti que me faça continuar a (sobre)viver à tua falta.

Acordo todos os dias e não te vejo, não te sinto, não te tenho aqui; acordo todos os dias e é mais um dia que o meu coração parece querer perder o norte e o fôlego, o ar que respiro não se liberta, os meus pensamentos misturaram-se e baralham-se como num final de tarde de maré cheia em que o mar se funde com a areia: balançando.

A vida sem ti é só um simples rascunho, um poema sem musicalidade, versos que não se conjugam, uma melodia desafinada, um filme com um final inacabado. Estava escrito por aí: nas estrelas, na brisa, na terra húmida de Outono e na nossa pele que o meu destino era perder-te. Aos poucos via o que nos unia a desvanecer-se como uma névoa de inverno.

Aos poucos a vida dizia-me que te ia perdendo, como se perde o medo, como se perde o melhor amigo, como se perde a confiança, o ar que se respira. Aquele tipo de perda em câmara lenta, que se estilhaça em pedaços como vidro, sem capacidade de se explicar, sem motivos e sem razões. Somente uma perda de algo que sentimos como nosso, de algo que faz parte daquilo que somos e daquilo que fomos e seremos. Aquela cratera sem fundo que parecia querer consumir-me sem tempo e sem validade.

Aos poucos, sem nada que o fizesse prever fomo-nos afastando um do outro, seguindo rotas diferentes, fazendo outras vidas, cruzando os nossos caminhos com outras pessoas; aos poucos parecia que tínhamos deixado de ter coisas em comum; aos poucos a cumplicidade que nos tornava seres ligados um ao outro para sempre, deixou de existir, de fazer sentido, de se notar, de se sentir. Já não havia nada para falar, já não havia nada para partilhar, não encontrava nada que pudéssemos viver em conjunto. E tudo foi esmorecendo, como a pintura esbatida de um quadro.

Não havia razões que nos levassem a um reencontro e desde o afastamento até ao aparecimento da saudade foram poucos passos. Deixei de te ver, deixei de te ter por perto, deixei de poder contar contigo para ser feliz. Na verdade, fui perdendo a esperança, fui roubando anos de vida e pedaços ao meu coração inconformado com a tua ausência.
Deixei de saber de ti, por onde andas, o que fazes e mais importante que tudo: se és feliz. Se essa tua nova vida de completa e te preenche, se ainda te lembras de mim, se tive ou ainda tenho algum significado para ti. Se pensas em mim com a mesma intensidade que eu penso em ti, se me desejas como eu te desejo a ti. Se me vês nos teus sonhos e me sentes na tua solidão. Não tenho respostas para todas essas questões ou meras dúvidas; mas conto aproveitar o resto da vida a correr atrás delas.

Fui tentando – a todo o custo – seguir em frente, vivendo a minha vida sozinha, longe de ti, sem marcas tuas, sem lembranças e recordações, apesar de não conseguir esquecer a forma como me olhavas, como me sorrias, como me tocavas, o aroma que deixavas. As palavras que ecoavam de ti.

A falta daquela parte de ti que me preenchia todos os dias, deixou de estar aqui, de me pertencer, de fazer parte de mim e ainda não consegui descobrir como gerir e lidar com isso. Aquilo que sempre achei ser eterno; afinal tornou-se finito da forma mais dura e fria.
Procuro um esboço de ti no horizonte, onde tudo o que me trazia luz e vida fazia parte de ti, procuro tentar arranjar uma forma de recuar no tempo, de encontrar-te e recuperar-te.

De tentar reconstruir as peças que perdemos. Percebi que preciso de ti na minha vida, que preciso que os nossos caminhos se voltem a cruzar, preciso daquilo que tu me dás. Preciso de ti, preciso que voltes, que me conquistes, que te reinventes e que sejas exactamente a mesma pessoa que eu conheci, que sejas para mim como sempre fostes. Não mudes. Gosto de ti assim, tal como és.

Um dia, disse-me a vida que te perdi. Não sei se acredite piamente nisso; talvez sim, talvez não, na verdade continuo a sentir-te aqui e em mim. A vida diz-me agora que o meu verdadeiro caminho é lutar sempre por ti, dar a minha vida por ti. Até voltar a ter-te aqui.

PORAna Ribeiro
FONTEEscreviver
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