É difícil para nós jovens…

É difícil para nós jovens encontrar beleza onde aparentemente não há. É fácil para nós velhos com almas jovens cansadas lembrar como era. Lembrar dos dias em que o sol entrava pelas nossas janelas sem pedir licença, das cortinas que balançavam com o vento, o vento despreocupado, imprudente, a brisa leve atravessando as grades trazendo um sentimento de liberdade. Hoje o sol ainda entra mais não significa a mesma coisa, parou de fazer sentido, parou de sentir.

Os anos se passam, a vida corre desvairada. É fácil olhar para trás quando já está lá na frente, difícil é admirar o caminho presente sem se preocupar com a próxima curva, mudança de rota. É fácil se acostumar com a tristeza, é fácil se lembrar das lágrimas como uma forma de aprendizado quando todas elas já foram choradas. Difícil é mantê-las para dentro quando elas sufocam tudo o que você é. As pessoas apesar de fortes se consideram fracas como um gesto de humildade. Mas elas sorriem o dia inteiro e quando o sol se põe a noite acolhe toda a sua essência e a permite ser quem ela realmente é. Permite a sua natureza. É difícil para nós jovens olhar além da aparência, além do parecido, além do acostumado. A aparência foi modificada, alteraram o parecer, os costumes e as cores ou deram uma nova. Nos planejaram uma vida, um formato, um motivo. Se arrepender é fácil, difícil é viver sem medo de errar. É difícil para nós jovens e não tão jovens amar com o coração. Difícil é manter o coração aquecido, a alma acesa, a postura ereta quando em cada esquina a verdade desaparece mais um pouco. É fácil amar o dinheiro. Difícil é chegar no fim da vida e perceber que ele nunca significou nada. É fácil admirar a beleza arquitetada que só vamos perceber que não era real quando estiver difícil demais voltar alguns instantes. É fácil conceituar o que é fácil, difícil é conceituar o difícil, planejar o espontâneo, criar o próximo momento ou recriar algum breve. É fácil ver as pessoas quando elas passam, passeiam. Difícil é enxergar o humano quando ele ri sem um motivo aparente, quando ele chora, namora, consola e se isola.

É fácil olhar nos olhos, difícil é olhar além dos olhos, além do que a sua vista permite, seu corpo suporta, sua mente limita. É fácil se apaixonar pelas mãos, pelo formato das costas, do maxilar, pelas curvas. É fácil se apaixonar por aquele nariz, paradinho ali daquele jeito. É fácil se apaixonar pelos cabelos, pelas ondas.

Difícil é amar o conjunto inteiro. Cada membro, membrana, célula, DNA, todos os compostos compondo o conjunto que talvez você tenha esquecido de combinar com a alma. É fácil viver o momento, difícil é fazer com que o momento dure, perdure. Viver é fácil. Difícil é morrer com a certeza que permanecera vivo na memória das pessoas. Permanecer vivo em quem você tocou, seu toque presenteou. É fácil ser ruim, magoar e prejudicar. Difícil é esquecer, consertar, pedir perdão, merecer e tentar viver. É fácil refletir a vida, quando os anos se passaram, as rugas tomaram conta do corpo, o corpo que já não tem força, a mente que já parou de ter certeza, parou de conceituar, parou de dar fórmulas. A vida se reproduz como um filme. Difícil é se orgulhar desse filme. Difícil é aplaudir quando o fim for anunciado e você estiver prestes a conhecer o desconhecido mais conhecido do mundo.

Difícil é admitir que a beleza acaba, que os anos se passam, que pessoas se perdem, que pessoas se encontram, que pessoas são pessoas antes de tudo apesar dos feitos, dos não feitos, dos defeitos. Difícil é fazer o amor durar, o sentimento aumentar. Difícil é ter esperança enquanto o mundo inteiro produz vingança. Difícil é levantar de manhã e saber que você e todas as outras 7 bilhões de pessoas serão elas mesmas só depois que o sol se for, que a poeira abaixar, que o espelho parar de refletir, que a TV parar de exibir, que a música parar de tocar. Difícil é aceitar que ninguém vira, ninguém torna, todos já somos.

Apenas revelamos quem realmente somos, quando for justo, viável, direito, nas conversações, nas ações e expressões. Quando formos sem medo ser. Ou aceitarmos o desafio de ser em um mundo onde todo mundo quer nos escondamos. Fácil é escrever, é ler. Difícil é a partir daí tirar um preço, um pretexto, algum valor, um contexto para contextualizar a sua existência.

PORRaquel Soares
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