Diário da tua ausência…

As noites ficaram mais frias, coloquei mais mantas na cama, mas são os pensamentos que me arrefecem, tenho o coração gelado e as lágrimas que transbordo arrepiam-me a pele. Os dias mais longos e penosos. Tem-me custado adormecer, acordo muitas vezes e fico acordada só a desejar dormir, a pedir paz, tréguas com a minha cabeça.

Por vezes atinge-me que é isto, é viver sem ti. E o ar é-me sugado dos pulmões como que com um golpe bem calculado na barriga, debato-me para respirar de novo, mas recuperar o fôlego é uma tarefa exaustiva e recomeçam os soluços e a respiração superficial.

A única coisa que acho curiosa e que os pesadelos deixaram de me assombrar, talvez porque tenho dormido pouco … em vez disso o meu cérebro (que é um órgão caricato e traiçoeiro, consegue enganar o meu corpo e apoderar-se dele), faz-me crer e sonhar que estou contigo, que estou bem. Só para despertar para a realidade de que é de madrugada, estou gelada, sozinha e o meu corpo parece doer sem razão.

É fácil, agora que me encontro tão degrada em mim própria, sozinha e desesperada, lembrar as noites quentes, os beijos doces, as gargalhadas verdadeiras, as vezes que adormeci no calor do teu peito, o quanto me perdi no teu corpo, o quanto te amei e me amas-te de volta … e era tão fácil ligar-te e entre soluços pedir que me ames mais e melhor, que me venhas buscar e nunca mais me deixes.

Percorri a rua do amor, aquela em que vivíamos, e o que encontrei foi amargura, mágoa entre cada discussão, perda em cada reconciliação, o desvanecimento progressivo de cada um de nós enquanto pessoa. Visitei alguns locais importantes, mas parecia só avistar as vezes que nos deitámos chateados, as manhãs que teimavam começar tortas mesmo antes dos pés alcançarem o chão, as lágrimas derramadas por cima um do outro, o sufoco te de querer, de te amar, mas saber que precisava de mais, mais de mim.

Desapareci, fui-me embora de mim, de ti, de nós. A tua ausência é o meu novo perfume, as minhas olheiras, o nariz que funga sem estar constipado, os suspiros entre garfadas sem vontade de comer, as insónias e os ataques de desespero. As pessoas já reparam e questionam … perguntam-me como estou, e respondo que estou, porque é isso mesmo, apenas estou.

Estou algures em existir, sem que se note muito, a lutar para ficar à tona da água que teima em continuar a subir, a maré que insiste em contrariar os meus esforços de chegar à costa. Sou ar e flutuo por quem fomos e já não seremos, sou chama que arde alimentada pelo vazio que carrego em mim, sou mar e perco-me em oceanos de memórias, sou terra e não me consigo fixar ao solo.

Fui tanto e agora não vou ser nada, nada mais que te magoe, que te impeça de ser feliz, que te acorrente com os meus devaneios, que te prenda.

PORDayDreaming
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