Desistir é pontualmente, um ato de bravura!

Vesti o vestido mais bonito que estava dentro do guarda-roupa, maquilhei-me evidenciando as maças do rosto com um blush num tom ligeiramente rosado, e marquei os meus lábios com o batom vermelho que tanto adoravas. – Lembrei-me de quantas vezes te manchei a t-shirt branca sem querer e ri da tua cara de chateado, de quantas vezes, resquícios do meu batom se embrenharam na tua barba por fazer. – Uma sombra clara e o habitual cat-eye.

Calcei os saltos de 15 cm e mirei a minha silhueta no espelho; sou bonita e atraente. Sei como seduzir e fazer qualquer um rastejar aos meus pés. Infelizmente, só não sei como te esquecer.

Caminhei até ao carro e entrei no bar da cidade, o mesmo que frequentava contigo todos os domingos à tarde – a diferença é que hoje é Terça à noite.

Traguei um cigarro em tua homenagem, e assisti o fumo dissipar-se em meu redor.
Bebi um gole de whisky, e desliguei o telemóvel. Qualquer rastro de ti, é capaz de me matar.
Sei disso, aprendi isso com a tua ausência.

Dizem que «fumar provoca uma morte lenta e dolorosa», leio isso nos maços de tabaco que ultimamente tenho comprado. Eis-me aqui, a tentar matar um vicio com outro. A tentar matar o amor que te tenho, o mesmo que me mata lenta e dolorosamente todos os dias. Pergunto-me se quem inventou o cigarro, alguma vez amou?

Se calhar quem o inventou nem sabia que o amor poderia matar mais do que centenas de cigarros – cigarros esses, compostos seja lá pelo que for – que prejudicam os pulmões. Nem sei o que é compõe o cigarro, só sei que os vou tragando em tua memória.

Lembro-me de cada palavra que me dirigias nos momentos de fraqueza, «não desistas meu amor, tu és mais forte que isso». Forte o suficiente para te deixar ir sem argumentar, sem implorar para que ficasses? Forte o suficiente para lidar com a perda? Forte o suficiente para desapegar, largar, deixar ir, apenas deixar ir? Ou forte o suficiente para lutar por ti?

Agarrei-me a cada palavra tua, de incentivo, de motivação. A cada memória do que vivemos e das lições que me ensinaste. E então lutei. Lutei porque lutar é sinónimo de mulher. Mulheres vão à luta, seja qual for a circunstancia, mas tu não te abrias para receber o meu amor, nem a minha força, tu construíste muros tão altos que eu senti-me incapaz de alcançar. Lutar por ti foi em vão, lutar por nós foi um erro. Um erro, porque ninguém pode lutar por dois. Quando um não quer, dois não podem ficar juntos. Quando um desiste, por mais que o outro tente, um só não pode fazer tudo pelos dois.

Ensinaste-me a lutar, a ir ao encontro dos meus sonhos, dos meus objetivos. Ensinaste-me que nunca devemos desistir daqueles que mais amámos. Ensinaste-me tu e ensinaram-me todos aqueles que me rodeiam e me amam e durante meses me viram chorar gordas lágrimas salgadas.

Só não me ensinaste, nem nenhum deles me ensinou, que por vezes, pontualmente, desistir é o nosso ato de maior bravura, desistir demonstra toda a força que em nós reside. E por mais que duvidem, depois de tudo, desistir de ti, foi provavelmente o meu ato mais heróico.

Eu nunca saberia amar-me, se continuasse a amar-te sozinha.