Desconfio que a vida nos oferece oportunidades de sermos bons o tempo todo

Nesta semana, entre tantas leituras, terminei o adorável “O clube do livro do fim da vida”, de Will Schwalbe.

O livro é delicado e profundo, e conta a jornada de um filho ao lado de sua mãe depois que ela é diagnosticada com um câncer incurável. Durante dois anos, Will acompanha a mãe, Mary Anne, às sessões de quimioterapia. Nesses encontros, conversam um pouco sobre tudo, de coisas triviais ao que, para eles, realmente importa: a vida e os livros que estão lendo.

Num dado momento, questionando o enredo de um dos livros do “Clube do Livro”, Will diz: “Apenas me sinto culpado por não estar fazendo mais no mundo”. Ao que Mary Anne, a mãe, responde: “É claro que você poderia fazer mais _ sempre pode fazer mais, e deveria fazer mais _, mas mesmo assim o importante é fazer o que pode, sempre que pode”.

Grifei esta frase no meu livro e tenho pensado nela desde então. Assim como grifei o que veio a seguir:

“Muitos dos meus amigos dizem que querem fazer alguma coisa, mas simplesmente não sabem como começar. O que você diz às pessoas que lhe perguntam isso?” “Bem”, disse ela, “as pessoas deveriam usar seus talentos”.

Então me lembrei de algo que, coincidência ou não, aconteceu esta semana. Um grande amigo, conhecedor de trilhas sonoras bacanérrimas, me contou que estava começando uma corrente musical “do bem”. Frisou que não gostava do adjetivo “do bem” porque soava como se ele fosse melhor que os outros, mas que seu gesto consistiria em enviar uma música toda manhã para aqueles amigos que estivessem passando por uma situação difícil (e não eram poucos!). Me incluiu nesta lista de pessoas pelo carinho que sempre teve comigo e por sermos “parceiros de escrita e de sensibilidade”. Desde então sou agraciada com músicas belíssimas no WhatsApp logo que acordo, como um “bom dia musical”.

Meu amigo usou seu talento _ a sensibilidade e o bom gosto musical _ para “fazer alguma coisa”.

De vez em quando imaginamos que precisamos realizar grandes feitos para que o mundo reconheça nossa generosidade e bondade. Porém, não é assim. Não precisamos adotar crianças africanas, fundar bibliotecas no Afeganistão, partir em missões em prol dos refugiados… para que nosso gesto seja válido. É claro que se pudéssemos fazer tudo isso seria maravilhoso, mas não é porque isso não está ao nosso alcance que precisamos cruzar os braços e simplesmente não fazer nada.

Desconfio que a vida nos oferece oportunidades de sermos bons o tempo todo, nós é que demoramos a entender ou fracassamos em aceitar.

Desconfio que somos desafiados a usar nossos talentos para o bem comum, muito mais vezes do que podemos contar, mas poucas vezes dispomos a arriscar.

Desconfio que o mundo poderia ser bem melhor se houvesse mais música, mais doações de sangue, mais leituras e flores colhidas e oferecidas… mas nem sempre estamos prontos a ofertar.

Desconfio que fazer o bem está mais perto do que imaginamos, mas poucas vezes somos solícitos o bastante para doar nosso tempo e nosso talento em prol de alguém.

Desconfio que a vida não nos pede muito, apenas aquilo que podemos dar, mas muitas vezes desistimos das possibilidades em nome da comodidade.

Desconfio que para fazer o bem não preciso esperar que ninguém venha atrás de mim, é comigo que preciso contar, é através do meu esforço que posso realizar.

Uma prece, um livro lido no meio da tarde, uma carta escrita à mão. Uma visita inesperada, uma doação de sangue, uma música de bom dia. Um elogio, um abraço, um sorriso. Uma gentileza, um ato de paciência, uma ajuda financeira, um aperto de mão.

Tudo são bênçãos, possibilidades de fazermos “alguma coisa”. Tudo são presentes, oportunidades de “fazer o que pode, sempre que pode…”


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