Desabafo perdido…

São cinco da manhã e ainda não consegui dormir, a infelicidade veio tirar-me o sono. Já me levantei para ir à casa de banho e para beber um copo de leite quente, mas o sono não vem. Já contei carneirinhos, como fazia em pequena, mas nada.

A ideia dos carneirinhos transportou-me até à idade em que adormecia enquanto os contada, devia ter uns cinco anos. Sonhava ser bailarina, as aulas de dança ocupavam todo o meu tempo livre, eram a minha grande paixão.

Os anos passaram e comecei a gostar de escrever, os meus textos eram os melhores da turma, os professores elogiavam-nos tanto… Diziam que eu iria ser uma escritora de grande sucesso, que teria um grande futuro e que um dia iam estar numa sessão de autógrafos minha.

Mais uns anos e chegou a altura de decidir a área que queria seguir, aí é que começou a minha luta. Já não é questão do que eu gostaria de ser ou do que eu queria, era algo sério, era o que eu ia ser, era o meu futuro.

Seguir artes e ser bailarina? “Ninguém ganha dinheiro a dançar, nunca vais ser suficientemente boa nisso, nunca vais conseguir.” Era um sonho de criança, que ficou na infância.

Seguir humanidades e ser escritora? “Escrever todos escrevem, lá por tu gostares de letras não vais ser escritora, não é um emprego fixo, não se ganha bem…” Podia sempre escrever nos tempos livres.

Seguir economia e ser bancária? “Qualquer dia os bancos fecham, não vais vás por aí, não tens futuro, não vale a pena! Os que já lá estão vão ficar por muito tempo, não existe espaço para os novos.” Eu sabia que não era verdade, mas nunca fora o meu sonho, também não me importei.

Seguir ciências e ser médica? Era isto que todos queriam, uma médica na família, uma médica para cuidar de toda a família na velhice, uma médica que ganhasse bem, uma médica que tivesse um futuro garantido. Quando falei em tal todos cá em casa disseram que sim, e antes que eu mudasse de ideias, no dia seguinte estava matriculada. Foi o inicio do meu fim.

Estudava que me matava, odiava a biologia, deixei de sair com os meus amigos para estudar mais, passa todo o meu tempo livre enfiada em livros. Devia ter visto logo que estava no caminho errado. Mas a verdade é que entrei em medicina, na faculdade que queria, e com uma nota alta.

Fui assim médica, a médica que todos lá em casa queriam, a médica que todos os pacientes queriam, a médica que tratava todos bem, a médica que já ajudou os meninos em África, a médica que já salvou vidas, a médica que tem dinheiro e uma vida estável. Uma médica que se tivesse sido bailarina ou escritora estaria a dormir tranquilamente.