Desabafo de uma voluntária

Estive num centro comercial numa cidade do norte do país, numa ação de voluntariado conhecida por todos: o peditório nacional a favor da liga portuguesa contra o cancro. A causa é mais que nobre, até porque todos nós (infelizmente) conhecemos alguém que já passou ou está a passar por aquele que é o maior mal do século, muitos de nós já perderam até quem lhes era mais querido por causa do cancro.

Não foi a primeira vez que participei nesta causa, mas nos outros anos participava em meio rural, não em meio urbano. Vou-vos dizer quais foram as principais diferenças que senti. Em anos anteriores, numa hora conseguia encher uma latinha com ofertas bastante generosas dos senhores e senhoras mais idosos da minha aldeia. Porquê? Lá me iam dizendo “ai dou a minha ajuda sim, menina, que também já precisei” ou “ajudo sim, menina, já tive pessoas da minha família a precisarem”. Este ano estive uma tarde inteira num centro comercial, onde recolhi algumas moedas de umas 20 ou 30 pessoas. Qual era o perfil das (poucas) pessoas que iam contribuindo? Pessoas mais idosas, pais com os filhos à beira para darem o exemplo e não mais que isso. Jovens? Passavam cheios de sacos de compras, passavam todos tatuados, passavam com corpinhos definidos de irem ao ginásio, passavam com as carinhas cheias de make up, passavam com a manicure em dia, mas terem 5, 10 ou 20 cêntimos que fosse para contribuir não tinham, coitados! Só espero que quando conhecerem amigos, familiares que precisem da ajuda da liga portuguesa contra o cancro fiquem com bastantes remorsos por terem passado tantas vezes pelos voluntários e não terem contribuído. O lema da campanha era “contra o cancro todos contam” e realmente todas as ajudas contavam, por pequenas que fossem, custava muito parar um bocadinho e dar uma pequena contribuição?

Vim para casa com uma dor de pernas e de costas, por ter estado a tarde inteira ali, parada, à espera das contribuições que nunca mais chegavam, a receber os olhares de indiferença de quem passava, mas vim sobretudo triste, porque fiquei com vergonha da minha geração, com vergonha da geração consumista que se está a criar. Há dinheiro para gastar em roupa de marca, em telemóveis caros, em carros topo de gama, em tratamentos de beleza, nas idas quase diárias ao ginásio, em fast food, na ida semanal ao cinema, mas para ajudar aqueles que não sabem até quando vão conseguir batalhar contra a doença não há. Uma simples moeda para ajudar aqueles que vivem todos os dias o suplício da dor, não há. Já disse, mas volto a dizer: tenho VERGONHA dos jovens de hoje em dia.

Eu participo nestas ações de voluntariado porque já perdi quem me era querido por causa do cancro e porque me lembro que um dia posso vir a ser eu a precisar da ajuda da liga e vocês que não pararam para ajudar, não ajudam porquê? Custava assim tanto irem ao bolso tirarem uma moeda para ajudar? Tive pessoas que se notava que precisavam do dinheiro e no entanto contribuíam e vocês não. Ganhem vergonha, por favor. E não me venham dizer que não têm dinheiro e que estamos em crise, porque para andarem a pavonear-se sempre de um lado para o outro lá no shopping a colecionar sacos de compras de lojas diferentes vocês tinham!

Posto isto, o meu muito obrigado a todos aqueles que ainda participam nestas ações de voluntariado (porque sim, também é vergonhoso serem tão escassos os voluntários para estas causas) e o meu muito obrigado àquelas poucas pessoas que fizeram com que a minha tarde fosse gratificante e que comigo ainda foram trocando sorrisos.

Deixo ainda uma mensagem de força a todos aqueles que estão internados nos IPO do nosso país ou que precisam de ir lá frequentemente, porque sei que é preciso muita força de vontade e muita coragem para não desistirem. Vocês são uns guerreiros e umas guerreiras e sei que vão conseguir vencer a vossa luta contra o cancro!

PORA.Q.
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