Dentro dela!

Se tudo corresse bem, trocávamos mensagens de dois em dois dias. Preferíamos assim, para que o nosso amor não se asfixiasse.

Em cada mensagem trocada, eu contava-lhe os meus dias: o que fiz; por onde andei; e quantas vezes deixei que o nome dela me assaltasse a mente. Anotava-o num papel, em barras verticais: vinte e seis traços, contei eu, em apenas um dia. Depois, passados dois dias, ela contava-me os dias dela, só que em vez de anotar de forma obsessiva as vezes que pensava em mim, dizia-o por alto: «umas treze, sei lá eu.». Ela gostava de um amor desordenado, feito de acasos, onde cada palavra surgisse da apaziguadora vontade de amar. Eu gostava das coisas por inteiro, onde cada momento fosse a certeza de um amanhã. Talvez por isso tenhamos decidido assim, em nos desatarmos por uns dias deste amor ofuscante. Para que não nos desfizéssemos neste promiscuo desalento. Tínhamos as palavras na boca e os s3x0s na mão. A voz dela quente, silenciosa, a surgir com a intermitente ausência das palavras. Sabíamos o que o amor nos tinha para oferecer, e que caminhos nos devolveriam o misturar dos corpos.

Passava a minha mão pelo meu corpo nu, até chegar ao s3x0, e a imaginar-me dentro dela, de olhos fechados, com a vontade dos cinco impérios, com a fome de mil homens, até que me elevasse a um lugar onde te sentiria bem perto. E a flor dela brotava entre as pernas que a cobriam do frio, até que o desejo desvanecesse num último grito, proclamando todos os pecados da humanidade.

O nosso amor sabia esperar, cabia naquele intervalo de tempo. Os dias sem ela eram dias longos. Pouco se passava e nada se dizia. Contudo, cá dentro, bem dentro, continuava aquela inquietante sensação de nada saber sobre quem amamos. Era aquela tal história da confiança, aquele medo, surdo e mudo, que provoca insónias, e até convulsões. Ela dizia que as únicas pessoas que sabem amar são as que o fazem em silêncio. Então calava-me. Desesperado, perguntava-lhe: quando é que estamos juntos? E ela respondia: quando fecharmos os olhos. Fecha os olhos, e pensa no meu abraço – dizia ela -, não é interessante como consegues sentir o meu abraço sem nunca antes o teres sentido. E tinha razão. Era interessante como lhe imaginava o corpo e a pele, o toque e a respiração. Conhecia-lhe as palavras, mas não distinguia uma verdade de uma mentira. Não estava lá para ver. Nunca estive. Porque é que continuávamos: porque, de dois em dois dias, estávamos lá, prontos para nos pertencermos em palavras que jamais decifraríamos.