De mim para ti

Sei que há muito que te deixei, parece que te guardei numa caixinha de madeira lá no fundo da estante empilhada de livros que nunca foram lidos por mim. Na verdade a única coisa que eu sempre quis ler foi a tua mente, mas ela encontra-se mais indecifrável que um livro todo escrito em latim.

Sei que pensas que os meus olhos já não te olham da mesma forma, na verdade eles já nem olham, porque encontrar o teu olhar no meu é o mesmo que o rebentar das ondas na areia, aquela explosão, sabes do que falo? Certamente não sabes, não compreendes, não sentes. Mas aquela caixinha de madeira está vazia de ti tal como a minha cama, a minha roupa, a minha pele.

Chamam-nos loucos por amar, mas não seremos ainda mais loucos sem o amor?

O teu respirar, o teu toque nas minhas costas, nos meus braços no meu cabelo, o teu perfume que se entranhou nos lençóis, no meu pijama, aquele dos ursinhos e na minha alma, sim aquela alma que agora está vazia e solta, que voa como um nada.

Será que ainda a tenho?

Sabes, dizem que só damos valor quando perdemos e eu perdi-te, perdi-te nos olhares, nas mãos dadas, nas risadas, nos momentos mais pequeninos do dia-a-dia que agora me fazem chorar por se terem tornados os gigantes momentos que eu não tenho mais.

Dei-te valor, ainda dou. Não digo que estarei aqui para sempre porque dor de alma cansa, assusta e dói. E se me queres tão bem quanto eu te quero, sabes que temos que ir embora, para sempre.

Como dizem, “agarra ou larga”. Eu quero que me agarres em ti ou me largues nos teus braços.

Não te peço o mundo, peço-te que sejas o meu mundo, que sejas tu e que eu seja eu.

Porque hoje já não sou eu, sou uma sombra de ti que não soube desaparecer quando a luz se apagou e o meu coração ficou as escuras…