D(Anos) de Amor

Um dia ela acompanhou os meus passos como se de uma dança se tratasse, e deixou-me guiá-la pela sincronia dos acordes musicais. Outro dia ela desapareceu.

Se a partida é inevitável e os sonhos indispensáveis, se a vida é impenetrável desaparece logo de uma vez. Não deixes que me apegue e faça planos que não se irão realizar, não me deixes crer na mentira que dizes ser verdade. Deixa-me antes que minhas lágrimas corram pelo rosto, antes que fira a minha coragem, antes que deite tudo a perder, antes que tente ganhar asas num precipício e perca os meus instintos de sobrevivência. Não irrites os meus medos, não confundas a minha sanidade e não venhas para destruir o meu equilíbrio. Vai. Vai e leva tudo que te pertence. Levas tudo contigo? Não quero nada que mate o meu sorriso com lágrimas.

Não quero um relacionamento individual onde eu sou eu e tu, onde tu és a única plateia que não valoriza os meus esforços teatrais. Dá-me cinco minutos para preencher as lacunas que estás a causar, deixa-me preencher as lacunas com sofrimento, dor e inutilidade, agora podes partir, volta para aquilo que queres enquanto e sobrevivo como sempre fiz até agora.

A robustez das minhas palavras confundem a mente, mas esquece a tua lucidez, não adianta explicações quando gostas de ser tu e acreditares no que queres acreditar. Estás a fugir mesmo antes de saber o que de bom te posso dar, estás a ignorar-me mesmo antes de te decifrar. Tens medo de ser feliz? Se a tua partida é inevitável e o teu sonho indispensável, se a tua vida é mesmo impenetrável, ao menos arrisca a carregar-me contigo. Mas ninguém fez isso, nem mesmo tu.

As coisas não são do mesmo modo. Aposto que não me ias reconhecer. Conheceste no passado, nesse tempo que lá vai, mas tudo tem um início e um fim, eu fui o teu início e tu o meu fim. O significado do que vivemos será apenas uma lembrança, é verdade, eu tentei tanto e cheguei tão longe, mas agora, isso não tem qualquer importância.

Agora sou eu. Agora o despertador não tem segundos suficientes para curar o meu vazio. Nenhum livro é capaz de ter um final feliz. Não vejo sorrisos na rua. Nenhum amor inteiro é verdadeiro. Nenhum amor parcelado é correspondido. Nenhum pedido de namoro é real. Nenhuma sombra acompanha os meus passos. Nenhuma presença diz o quanto me ama. Dias e noites sozinho. Vida solitária.

Não sei o que fazer. As chances de algo bom acontecer comigo nunca foram favoráveis, a percentagem da fração da felicidade encontra-se em zero que tende para menos infinito. Nada disso é suficiente para me manter vivo nas noites de insónias e nos dias de olheiras.

O meu corpo gelado não se queima com o café quente das manhãs de inverno. Não sei o sabor de um bom dia. As boas tardes são passadas num quarto escuro murmurando com as paredes.

Se alguma alegria está a caminho da minha vida, espero que chegue rápido, que chegue hoje e não peça licença para entrar, espero que venha antes que o meu instinto de desistência se apodere no meu corpo.

Temos de parar de colocar a nossa felicidade nas mãos de gente alheia, porque o grande mundo é pequeno e merece ser explorado.

 

Amor?

Palavra bonita, que não significa nada!

Não consegues lidar com isso?

Não lides, mas não deixes nascer aquilo que já vem morto: o amor.


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