Crónica: Só me apetece pisgar daqui para fora

Às vezes apetece-me  deixar o país, meter-me na alheta , pisgar-me daqui para fora, sabem?

Tenho pena de Portugal, outrora uma epopeia para além de traporbana, que hoje vê partir jovens navegadores à descoberta das oportunidades que não encontram. A epopeia acabou e hoje de que nos valem os títulos? Ainda nos pedem patriotismo, amor à bandeira,  que invistamos aqui, num país que nem a língua sabe conservar.

É triste dizer isto, e é mais triste ainda senti-lo, não me imaginar a ficar por aqui, já estar de olhos postos num sitio longe de tudo; longe dos amigos; longe da família, onde quer que isso seja. Mas, se a oportunidade surgir, porque não? Também não entendo porque continuam a escrever crónicas e a fazer documentários sobre a ilusão de ser emigrante, que não é fácil, que não é um mar de rosas. Se o mais triste disto tudo é começar do zero, num país desconhecido, imaginem ficar num sitio que nem oportunidade vos dá para começar. Acredito que quem emigre não o faça pela facilidade mas sim pelas portas que se abrem, pela vontade em exercer o que mais gostam. Uns por lá ficam, outros desistem, outros falham, mas pelo menos tiveram o discernimento de tentar.

Lembro-me quando chegou a hora de ingressar na universidade, da preocupação na hora de escolher uma área que gostasse, tendo sempre em consideração algo que tivesse uma saída profissional. Depois o meu tio ainda me disse «Não te preocupes tanto com isso, se fores o melhor naquilo que fazes terás sempre saída». Só depois descobri que a precariedade está em todo lado, mais aqui, menos acolá –  tanto faz. Precisamos de dez qualificados por ano para exercer este e aquele posto, e até nos esquecemos que, enquanto uns enchem os bolsos e outros continuam a viver na ilusão de que a qualificação é a única salvação, licenciam-se outros cento e quarenta. O que fazem esses? Ficam à espera de oportunidade? Vão na conversa do Presidente, que Portugal precisa de empreendedorismo? Empreendedorismo: O que é isso? É suposto a própria palavra criar esperança? Fazer tudo parecer mais simples?

Hoje, encontro-me prestes a acabar a minha licenciatura em Engenharia. E depois? Mais dois anos num mestrado? E depois,  mais três ou quatro pós graduações? E depois, mais um doutoramento porque sim? E depois? E quando tivermos todos as mesmas qualificações? O que nos distingue? A experiência? Aquela coisa que pedem em todo o lado, quando é o que mais procuramos?

Só me apetece pisgar daqui para fora, percebem agora?


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