A Confissão de Um Assassino

Há quem diga que a terra é apenas um manto fértil, que o céu é um tule de belo cetim azulado e que o Sol é a vida em si. Eu digo que tudo é mais do que ciência, que existe algo por detrás do óbvio e do científico.

O humano é tão frágil como um dente-de-leão, dá-se-lhe o vento… e ele vai-se. É mole, húmido, sujo… malcheiroso. Só tem de rijo os ossos, mas esses também se partem. Mas não é apenas isso, ele é muito mais. O humano é aquela criatura mesquinha que fica indiferente a qualquer morte, a qualquer sofrimento. É o egoísmo e o egocentrismo. É o ser que deseja o imortal, quando ainda nem sequer aprendeu a viver o curto tempo que lhe foi dado. E depois existo eu…

O meu nome é Manuel, o homenzinho enfezado que varre as ruas pelas quais vocês passam. Aquele ao qual vocês nem sequer dedicam um mero olhar. Mas também sou aquele que vos vigia de perto e vos segue até aos cantos mais sombrios. Aquele que vos amarra, vos arrasta e vos leva até ao meio do mato… da natureza. Aquele que corta lentamente a vossa carne pútrida, que sente nas mãos o vosso sangue asqueroso… às vezes viscoso… Aquele que vê o vosso último olhar, que ouve o vosso último grito… que assiste aos vossos últimos momentos de vida.

Psicólogos, psiquiatras, doutores… todos eles alegam que este meu passatempo se deve a uma doença. Consideram que psicopatia é apenas um distúrbio mental… Estão tão enganados.

Tudo o que eu faço é por prazer. Passei a vida a sonhar com o dia no qual me tornaria bem-sucedido. E ouvi durante todos esses dias os vossos comentários repletos de desprezo, o vosso silêncio mesquinho, os vossos olhares repletos de altivez.

Mas porquê? Perguntava-me. Por que me olham de lado as pessoas? Depois percebi que era por varrer as ruas que eles sujavam. Mas conformei-me. Pensei que eles tinham esse direito… até certo dia.

Cansei-me de varrer ruas e ser desprezado. Cansei-me de ver pessoas a desprezarem o meu trabalho ao atirarem papéis para o chão diante dos meus olhos. Cansei-me de varrer.

Não se trata de traumas, nem de desespero. Trata-se de um forte sentimento de injustiça. Queria ser doutor, mas não tive dinheiro. Comecei aos dezasseis a varrer ruas para poder concretizar o meu sonho, hoje tenho cinquenta… e aqui continuo. O meu país virou-me as costas. A sociedade portuguesa olha-me de lado. E Deus colocou a minha fé à prova e viu-me fraquejar. Agora não sou nada. Fiquei sem fé, sem sonhos e sem orgulho… mas descobri a vontade de viver.

Entre sonhos e delírios, imaginei os corpos daqueles arrogantes a serem despedaçados. E certo dia, peguei numa navalha, persegui um senhor engravatado que trabalhava num banco e cortei-lhe o pescoço. Foi fácil desfazer-me do corpo… afinal, não há nada que o ácido não desfaça e que o camião do lixo não esmague… Depois disso, continuei este ciclo vicioso.

Apanhava-os num beco ou num lugar sombrio de algum jardim. Amarrava-os, amordaçava-os e enfiava-os dentro do caixote. Depois, pela noite, levava-os para o meio do mato e amarrava-os a um pinheiro. E eles gritavam! Guinchavam como porcos! Mas ninguém os ouvia. E eu cortava lentamente… Tão lentamente!… E estudava as reacções do corpo. Via como em determinadas zonas existiam mais vasos sanguíneos do que noutras; via como a pele era tão espessa, mas, ao mesmo tempo, tão sensível; e deslumbrava-me com a beldade e variedade de órgãos. Finalmente estava a estudar para ser doutor!

Soube-me tão bem… Sabe-me tão bem…
Se hoje me perguntarem quantos e quais já varri, posso dizer que perdi a conta aos nomes e ao número. Foram demasiados! Mas posso-vos garantir que todos eles tinham algo em comum: nunca me diziam bom dia.
Ao fim de tantos anos, concretizei o meu sonho. De dia varro ruas, à noite estudo para ser doutor.


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