Como uma princesa me retiro

“Foste o meu herói. O meu único herói. Dizias que os momentos que passávamos juntos, eram os melhores para ti. Não te importavas de brincar, fosse qual fosse a brincadeira. Desde andar de baloiço, corridas com carrinhos ou barbies, alinhavas em tudo. Eu sentia que a minha companhia era verdadeiramente importante para ti. Todos os dias à mesma hora brincávamos, após chegares do trabalho e depois de eu concluir os meus deveres de casa. Ainda sinto o cheiro da comida da mãe no ar, enquanto nos divertíamos antes do jantar.

Quando me vias, a primeira coisa que dizias era “Onde está a minha princesa??” e eu corria sempre para os teus braços. A verdade é que eu te via chegar da janela do meu quarto, mas escondia-me e só aparecia quando chamavas pela tua princesa…eu adorava.

Lentamente fui ficando confusa. Primeiro deixámos de brincar tanto tempo como era costume, depois deixaste de achar divertido, estavas constantemente aborrecido e sem paciência. Começaste a discutir com a mãe. E, por fim, deixaste de me chamar princesa. Na altura dos meus 13 anos e pouco era rara a vez que estavas em casa, sempre a chegar tarde.  Os momentos ao jantar tornaram-se extremamente silenciosos. Sentia-me mesmo muito triste, principalmente por antes ter vivido uma realidade bastante diferente. A alegria.

Decidiste sair de casa, prometendo à tua princesa que te manterias em contacto com ela. Fiquei tão contente por voltar a ouvir-te chamar-me de princesa, mesmo que o entusiasmo não fosse o mesmo. Voltei a ter esperança de que, apesar de tudo, voltássemos a ser o que antes havíamos sido. Que ingénua. Desapareceste por completo. E agora que tenho 30 anos, decidiste voltar a ver-me? Lamento… Mas como uma princesa agora me retiro.”