Histórias de amor fictícias: I – Clair de Lune

Clair de lune

Acordo sem saber do meu telemóvel. Pergunto-me que horas serão, tenho um emprego a manter. Mãe!, grito – quando te esqueceres onde deixaste algo, pergunta à tua mãe, elas sabem sempre onde o deixámos.

Calma, responde. O teu telemóvel está lá em baixo. Adormeceste na velha poltrona a ler mais um livro e, ainda por cima, devias ter vergonha, nem te recordas como vieste aqui parar. Levanta-te e vai tomar um bom duche. Depois vai lá abaixo tomar o pequeno almoço. Despacha-te, são dez horas. A Lee deixou-te mensagem no telefone para estares nos AMC ao meio dia.

Levantei-me. Tomei um duche rápido. Não me lembrava sequer que tinha combinado com Lee ir ao cinema. Prometi-lhe ligar antes de adormecer (quantas mensagens terei?). Desci sorrateiramente do quarto para a cozinha. Devorei um delicioso bagel com ovo e bacon –um tradicional pequeno almoço americano – acompanhado de um sumo de laranja natural. Peguei no telemóvel.Quando o liguei apitou por todos os lados, parecia explodir a qualquer instante, mas eram só as doze mensagens de Lee que tinham ficado pendentes. Tive de lhe ligar.

Lee, sou eu, o teu príncipe adormecido que sonhou contigo a noite inteira. Não são conversas mansas, sonhei mesmo. Desculpa, adormeci à lareira a ler Dostoievski. Sabes que adoro ler naquela poltrona velha do meu avô. Acabei por ancorar lá até a minha mãe me deitar na cama. Soube que deixaste mensagem. Ainda queres ir ao cinema? Estou lá em quinze minutos. Sim, eu despacho-me. Ainda estou para ver se aquilo é algum filme de jeito. Sim. Está bem.
«Au revoir»

Chego ao Palasides Mall num instante. Espero L. à entrada dos AMC. Compro os bilhetes. Na sala sete, Chris Evans preenche o gigantesco ecrã enquanto alguns sons bruscos me assustam. Sem querer, no mais feliz descuido, olho Lee ao mesmo tempo que ela a mim e, num involuntário impulso – todos os impulsos são involuntários- , os seus lábios seduzem os meus num ósculo que (é este o momento em que nos beijamos), enquanto tiver memória, não esquecerei. No final, perguntei a L. se queria que a acompanhasse até casa. Responde-me que não só gostaria que a acompanhasse como ter o privilégio de me ouvir tocar no piano Clair de Lune do francês Claude Debussy. Desde que me deixes voltar cedo a casa, sim aceito – respondi. Para mais era feriado e, confesso, não resisto ao encanto de uma asiática assim, de pele morena , como Lee.

Em casa dela cumprimento a família Zedong, talvez ainda descendentes do comunista Mao Zedong, e sentamo-nos um pouco à mesa. Delicadamente – sempre delicadamente – aceito acompanhar num tradicional chá oriental que todas as noites é servido em honra a uma cultura que deixaram à muito. Trocam algumas palavras em mandarim e começo a pensar que a língua é a verdadeira muralha da china, recordando uma citação do livro Perdido por Xangai de P.Paixão. Agradeço o chá. L. chama-me. Sigo-a sem saber onde, provavelmente até ao piano. Acertei. Entro numa sala que me pareceu um escritório onde tinha um piano e L. se senta. Chego por trás e agarro-lhe suavemente as mãos, encosto o queixo ao ombro direito e pergunto-lhe se alguma vez tocou piano, se pelo menos isso fosse algo que lhe despertasse o interesse. Pelo que entendi – se é que alguma coisa sobre L. entendo -, o piano é apenas uma herança de um elevado valor do bisavô Kim Zedong, do inicio do século XX. Lee senta-se numa outra cadeira dando-me permissão para começar. Surge-me uma pequena questão. Porquê Debussy, e porquê Clair de lune? Mas não pergunto.

Toquei Debussy por todos os seus honrosos anos de vida, e pelos belos olhos de Lee. Enquanto tocava, recordava o beijo no cinema. Olho quase míope L. que fecha os olhos e está algures longe daqui. Apetece-me possuir-lhe o corpo com um simples beijo no pescoço, ou talvez o corpo todo. Paro de tocar, L. abre os olhos e chama-me para mais perto dela e Obedeço.

Podias cá ficar só esta noite – é a vontade de Lee. De que outra maneira que poderia te poderia agradecer a resplandecente forma com que agarraste no velho piano e lhe deste de novo alma. Esquece isso (não esqueças, quero muito, pede outravez). Amanhã acordas cedo e vais para o trabalho – insiste – , como te prometi.

Segui L. até ao seu belo quarto. Instalei-me como se tudo fosse meu, e nada dela. L. chega-se perto de mim. Sabes, és lindo, profere. Sem jeito, pareço hipnotizado pelos longos cabelos lisos que, a cada vez que L. chega mais perto da minha cara, me vão escorregando pelo peito abaixo. Sinto algo quase a explodir, um ambiente pesado, a boca dela quase na minha, um sufoco. Durante alguns minutos o silêncio cruzou-se entre nós, entre as nossas bocas coladas sem qualquer promessa, só pelo acaso e pelo desejo. Deitei-me ao lado dela e fiquei a olha-la enquanto trocava de roupa: a pele bronzeada, suave, os cabelos pretos sobre as costas, a lingerie branca, a minha musa, ali, pronta para mim, e eu, o melhor espectador possível. L. deita-se a meu lado, confessa que não me quer mentir e afirma que era um desejo desde a primeira vez que me viu numa daquelas manhãs no Bryan´s , o pequeno café em Nanuet, a pequena área de serviço, um posto de reabastecimento . Agradeço-lhe tamanho elogio, faço também eu as minhas confissões. Abraçamo-nos, beijamo-nos e, em pouco tempo, L. novamente a reafirmar-se a mais bela asiática que conheço. Fazemos amor sem qualquer tipo de ruído. No fim, L. levanta-se , abre a janela, pega numa pequena bolsa que tem perto da mesinha de cabeceira, sucessivamente num cigarro, fuma-o até ao fim sem dizer uma palavra. Começo a pensar que todas as minhas amantes – falo das fumadoras – gostam de pegar no cigarro e fuma-lo, como forma de protesto, insatisfação. E talvez seja isso. Indignado levanto-me, pego nas minhas coisas, L. continua no parapeito da janela sem dizer uma palavra. Entro no carro e visto-me. Olho as horas, são duas da manhã do dia seguinte. A viagem toda rangi os dentes O amor a arruinar-me os dias, sempre assim.

Cheguei a casa, peguei no único disco que tenho de Debussy. Agarrei em Dostoievski sem sequer ter coragem de o abrir. Chorei desde o inicio enquanto Clair de lune me invadia as curtas memórias, a latejante agonia. Tomei um ansiolitico e deixei-me adormecer na velha poltrona.
De manhã o telefone toca infinitas vezes. Não atendo com medo que seja L. Sinto a necessidade de me libertar de mim e, ao mesmo tempo, de me procurar. Estou farto das mulheres, da beleza que não serve para nada. Preciso de mim. Sei que estou bem longe, em qualquer lado, mas longe. Longe é um lugar seguro – é a ideia que sempre terei.

Telefono à minha madrinha. Fiz as malas e fugi para Paris.