Cintura a menos…

Sofia nunca fora uma jovem inteiramente feliz; nem interiormente sossegada. Desde muito nova que convivia diariamente com o problema da obesidade – fruto de uma alteração de nascença na Tiróide, que a fazia aumentar de peso quase descontroladamente por causa da medicação que tinha que fazer –; por mais dietas que fizesse, o seu peso não baixava dos 80Kg e a fome que sentia a todas as horas era incontrolável, para além disso, não era capaz de resistir a doces.

Apesar de Sofia ter consciência das consequências do seu problema – quer para a sua saúde, quer para a sua vida –, vivia atormentada, angustiada e desesperada. Tinha 21 anos, nunca tinha tido namorado (como poderia alguém apaixonar-se por uma miúda baixa e gorda como ela? Jamais olhariam para si e a pediriam em namoro; nenhum rapaz quereria sair com uma pessoa assim, pensava ela), era de estatura baixa, tinha olhos castanhos cor de mel, cabelo castanho-escuro encaracolado e sempre sonhara ter um corpo como o das raparigas que via na televisão e nas revistas. Só assim seria feliz e se sentiria bem consigo mesma e com o seu corpo.

Não gostava do que via ao espelho quando tomava banho e se olhava, não gostava de si própria, do seu corpo, não queria viver, desejava todos os dias não ter nascido e muito menos detestava viver para sempre com aquele maldito problema na tiroide que lhe tinha roubado todos os seus sonhos e aspirações. Já tinha pedido ajuda a vários médicos nutricionistas, já tinha experimentado os mais diversos ginásios e não havia meio de o peso diminuir.

No ceio dos seus amigos, Sofia era gozada por algumas pessoas devido ao excesso de peso (tinha gordura acumulada em várias partes do corpo nomeadamente na barriga, braços e pernas); pois, não podia vestir-se na maioria das mesmas lojas que as suas amigas porque não havia tamanhos para ela, era uma costureira da sua mãe que lhe fazia as roupas por medida. Sentia que nunca estava na moda, que as roupas que usava não tinham o mesmo brilho e a mesma classe das que as suas amigas usavam. Para além disso, fosse qual fosse a estação do ano, Sofia vestia-se sempre de cores muito escuras, que falavam por si e demonstravam o seu estado de espírito. Era apelidada de: gorda balofa; monte de banhas; papa-bolos entre outros insultos que a deixavam muito triste. Desde a entrada para o ensino básico, algures pelo 5º ano, que Sofia sofria de bullying, não contava nada a ninguém; sofria calada. Ouvia e engolia tudo.

Já tinham sido várias as depressões porque tinha passado, sem nunca ninguém saber o verdadeiro motivo; um dia, Sofia acordou determinada a mudar a sua vida. Estava farta de se olhar ao espelho e ver sempre aquela imagem deselegante, grosseira, feia.

Sofia, num desespero inexplicável, decidiu experimentar uma dieta descontrolada feita por si, sem o aconselhamento de nenhum profissional; e deixou de comer. Ao longo de todo o dia Sofia bebia água e comia uma única peça de fruta, sim, tinha fome (muita fome!); afastou-se dos amigos por não conseguir vê-los comer. Na sua mente Sofia acreditava que tinha que aguentar aquele sacrifício se queria perder peso e obter a forma física que tanto desejava. Para além da má alimentação, Sofia passou a ser uma obcecada com o exercício físico, todo o tempo livre que tinha era para estar no ginásio a levar o seu corpo ao limite, era acompanhada por Rodrigo, personal trainer, por quem se apaixonou. O que intensificou ainda mais a sua obsessão.

Passou um mês. Passaram dois meses. Passaram três meses. Sofia continuava com a sua dieta exagerada e desadequada e com o desporto fora de controlo; faltava às aulas (havia muitos dias que nem ia à escola!) e isso começou a trazer graves problemas de saúde para ela. Começou a ficar mais cansada, fraca, sem autoestima, sem motivação para fazer coisas simples e o que mais gostava (ler, desenhar, ouvir música, brincar com a gata Luna, rir…), sem vontade de sair com os amigos, de conviver com a família; tinha dores de cabeça fortes, crises de ansiedade, insónias e sempre que era obrigada a ingerir uma refeição normal, no minuto seguinte corria para a casa-de-banho para a deitar fora. Sempre que se via ao espelho, achava-se gorda, parecia que quanto menos comia mais engordava. Em pouco mais de um mês Sofia tinha perdido quase 30 Kg, toda a gente notava as diferenças mas ninguém lhes dava o devido valor; para os pais, finalmente Sofia tinha decidido emagrecer.

Numa das suas, muitas, sessões de ginásio, Sofia teve um desmaio e foi levada de urgência para o hospital. Esteve vinte e quatro horas em observação, até os médicos descobrirem o seu verdadeiro problema; Sofia tinha anorexia nervosa e bulimia.

Para os pais foi um choque, nunca se tinham apercebido das loucuras da filha e agora ela estava praticamente a morrer. O corpo de Sofia estava exausto, as defesas do seu organismo já não tinham forças para lutar e reverter a situação, a situação era muito grave. Sofia pesava 35kg, parecia um esqueleto no corpo de uma jovem que tinha tudo para ser feliz e ter uma vida normal. Não sabiam se ela se salvaria.

Rodrigo, que tinha socorrido Sofia quando ela desmaiou, estava visivelmente preocupado, pois, apesar de não ter dito nada, tinha-se apercebido das mudanças radicais.

Alguns dos seus amigos, aqueles que gozavam consigo, também mudaram radicalmente de atitude e ficaram visivelmente transtornados quando souberam do que se passava com a Sofia. Passando a visitá-la todos os dias, alguns até se ofereceram para ficar com ela na enfermaria durante a noite.

A muito custo e com o apoio de todos os que mais amava, Sofia superou a doença, foi melhorando aos poucos, ficou fora de perigo e saiu dos cuidados intensivos, passou a ter acompanhamento psiquiátrico quase diário durante alguns meses assim como o acompanhamento de uma nutricionista que a reensinou a comer. Rodrigo foi das pessoas que mais a apoiou e ajudou (sem se quer imaginar, que Sofia se tinha apaixonado por ele).

Meio ano mais tarde, Sofia já se sentia muito melhor, estava praticamente recuperada; apesar de continuar a ir às consultas com a nutricionista e o psiquiatra. Tinha recuperado a forma física e a vontade de viver, a medicação que tomava para o problema da tiroide também tinha sido reajustada. Sofia já era capaz de fazer uma alimentação equilibrada e de fazer exercício físico sem exageros, todos os dias corria com o Rodrigo no parque.

Hoje ia ser um dia especial… Sofia ganhou coragem para fazer uma coisa:

– Rodrigo… Tu… Queres namorar comigo? – Perguntou-lhe a medo.

– É claro que sim, Sofia!

– Não tens vergonha de mim, por causa do que se passou?

– Nada disso! Sofia lembra-te sempre que o mais importante, é nós gostarmos de nós próprios, e que os outros nos aceitem tal como somos. Eu gosto de ti assim, gosto desta Sofia de hoje, de agora, que está aqui à minha frente e não daquela Sofia doente que vi no hospital.

Sorriram um para o outro e trocaram o primeiro beijo.

Sofia e Rodrigo estão juntos há 5 anos e Sofia está prestes a contar a sua história ao mundo.