Cheira a saudade…

Estava eu deitada por cima da cama a devorar mais um livro, como já é hábito meu, quando de súbito sinto uma estranha sensação, como se estivesse alguém por perto a contemplar-me. Percorri o quarto com um olhar rápido e até um pouco, confesso, assustado e não encontrei ninguém, nem um vulto tão pouco mas conseguia sentir um cheiro a perfume intenso, um perfume que sabia conhecer, perfume esse que parecia emanar de um corpo mas de pressa percebi que não se poderia tratar de uma presença corpórea pois se assim fosse os meus olhos tê-la iam encontrado. Revistei de novo o quarto, desta vez com um olhar ainda mais apavorado e veloz. E nada! Nem um rasto, nem uma face, nem um corpo, simplesmente um quarto vazio com um aroma no ar que eu reconhecia mas sabia não ser meu. Por momentos quase me fizera acreditar que os fantasmas existem mesmo mas entendi logo que não, depois de pensar por breves momentos percebi finalmente de onde conhecia tal fragrância, era o teu perfume, da tua lembrança, cheirava a lembranças dos momentos que passamos juntos. Era aroma a saudade. Já faz meio ano que, abraçando-nos, despediste-te de nós mais uma vez, com a promessa de voltar. Não é só o meu quarto que cheira a ti, a casa toda está empestada desse odor amargo a saudade.

A mãe parece uma barata tonta sempre de um lado para o outro ansiosa pelo momento da tua chegada, parece que passem os anos que passarem ela nunca se irá habituar a esta triste e pobre vida, a mais nova passa os dias envolta num misto de sentimentos próprio da idade e eu, tão idêntica a ti, deves adivinhar como ando, sempre a mesma mulher forte por fora e menina frágil por dentro. Conheces-me melhor do que ninguém, no fundo, sou igual a ti. Sabes bem que quando a saudade dá sinal de si o mais certo é aproveitar as noites para chorar, certificando-me antes que já dormem as duas profundamente para que não me ouçam chorar, na verdade sabes que não quero que me vejam dar a parte fraca mas também sabes que depois de abafar o choro saudoso na almofada recupero forças e levanto-me de baterias recarregadas, pronta a enfrentar a vida e o mundo. Nos momentos de maior fraqueza questiono-me sobre a justiça no mundo, pergunto-me porque é que isto tinha de nos acontecer logo a nós que somos uma família tão unida e que precisamos tanto uns dos outros, porque é que tive de crescer sem te ter tão presente como os outros miúdos, mas paro por aí. Reconheço, na verdade, que mesmo longe tu ainda consegues fazer-te mostrar mais presente e preocupado do que a maioria dos pais, ainda que passes quase todo o ano fora sei com toda a certeza que fazes mais por nós do que muitos dos ditos “chefes de família”. Revolta-me todas as vezes que ouço a miudagem dizer que está farta dos pais, dá-me a volta aos estômago ouvi-los falar mal do pai ou da mãe e suplicarem que desaparecessem das suas vidas por alguns dias, e o pior é que são exatamente estas as palavras que proferem. Infelizes, não sabem o que dizem, não conhecem a dor de crescer sem ter o pai e a mãe presentes todos os dias para nos apoiar e amparar as quedas, para nos ajudarem, e mais importante que isso, nos verem crescer. Desengane-se quem pensa que uma vida assim é um mar de rosas porque não é.

Em breve sei que voltarás para te abraçar de novo e aí o aroma desta casa renovar-se-á. Cheirará a carinho e proteção, este lar receberá de volta o perfume da alegria do reencontro pai e filhas, marido e mulher, o perfume do amor. Que esse dia chegue rápido pois este cheiro a saudade já incomoda.


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