Cartas de um passado

“Bateu” no peito uma espécie de saudosismo e rapidamente se forçou a fechar a carta. Ao vasculhar pela gaveta encontrou outra e outra.

Palavras que eram de tempos que não estes. Palavras que hoje não tinham o sabor que tiveram quando as recebeu. Hoje não as sentiu. Já haviam passado por elas muitos calendários de trezentos e sessenta e cinco dias.

Eram palavras que enchiam folhas. Nada mais que palavras que “hoje” fazem parte do jardim da memória.

Na altura eram cartas que a faziam tocar nas emoções. Hoje eram apenas folhas escritas.

Um pássaro cantava no parapeito da sua janela e aproveitou-o para suavizar aquele momento. O chilrear daquele pássaro era igual às batidas do coração. Serenas.

Relia palavras que deixaram de ter aquele gosto especial no dia em que a dois encarregaram o tempo, de a seu tempo, fazer as devidas despedidas.

Sim, em tempos amou-o e também por ele foi amada. Hoje não havia o “eles” e sim, ela e ele.

Apercebeu-se que tinha uma gaveta cheia de cartas escritas com a letra dele. Cartas que sempre estiveram ali ao longo de todo o tempo em que não se tiveram. Cartas que não procurou e simplesmente encontrou e leu naquele dia.

Sentiu-se invadida por suaves ondas de ternura envoltas num misto de qualquer coisa menos boa. Deixou-o ir e não quis trazer à tona pensamentos e momentos que não rimavam com o momento presente. Ela, melhor que ninguém, sabia onde e com quem tinha estado e se não estava agora no mesmo sítio e na mesma companhia era porque já nada tinha a usufruir e a dar.

Foi um amor bonito e um amor que se deixou morrer. O “agora” não era o tempo perfeito para o regar. Jamais daria fruto algum aos dois. Já teve o seu tempo. Um tempo que passou.

O encontro com aquelas cartas foi apenas o aceder aquele mundo que viveu e que os fez tocar no céu do coração ao mesmo tempo durante um tempo.

Ela é daquele lote de pessoas que sente que a vida sempre arruma maneiras para aproximar quem tem que aproximar, do mesmo modo que também sente que há tempos certos para tudo e para todos. Mas na altura, não percebia as coisas como as sente hoje. Na altura doeu-lhe o “adeus”.

Talvez ele tenha sido uma daquelas pessoas que contribuem para aprender a crescer e talvez ela tenha sido também uma dessas pessoas durante uma temporada de aprendizagem com direito a recreio.

Apareceram na vida um do outro cedo demais e não conseguiram unir o mesmo caminho ou apareceram na altura certa? Seguiram e fizeram-no em direções opostas. Perguntas agora? Para quê? Todas elas desnecessárias.

Estava ali! Ela, as cartas mais um sentimento de gratidão a esse amor que também gostou de ter por perto. Foi feliz com ele mas hoje também o é sem ele.

Foi um amor mas não o grande amor da vida dela. Hoje sabe que no amor não se cortam flores. Sim! Hoje sabe que no amor não se corta nada. Em vez do verbo “cortar” faz-lhe mais sentido o “construir” e o “contemplar”.

É livre e percebe que é sendo e deixando o outro livre que mais intensamente se vive o amor.

Para ela, amar é isso! É estar por se querer estar e por tempo indeterminado. Sem sentimentos de posse. Por isso, na altura da vida em que se encontra não está predisposta a abrir mão dela mesma assim como não deseja que ninguém o faça por ela. Os sonhos têm que existir sempre e têm que se alimentar. Os sonhos de cada um e os sonhos a dois.

Quanto às cartas, não as rasgou num qualquer ataque de mágoa. Não guardava raiva alguma. As cartas ficaram onde as encontrou porque também faziam parte da sua história.

Hoje sabia que aquele “adeus” que ele um dia lhe deu sem pré aviso foi o bilhete de ida ao encontro da melhor viagem da sua vida, cujo destino foi “ela mesma”.