Carta para a minha grande paixão!

Já não consigo olhar para ti… Uma torrente de memórias, qual água lamacenta, deixa-me sem ar, esmaga-me por dentro, consome-me… Ainda assim sorrio. Lembras-te sequer do meu sorriso? Uma covinha bem pequenina, que um dia descobriste após um beijo? Um par de olhos quase fechados, como que a sentir, a eternizar um gesto teu, uma palavra tua? Aquele sorriso de criança que, nos momentos que te consumiam (e não eram poucos…), era o teu conforto quando não sabias como tudo ia acabar?

E acabou. Mas para acabar, não teria de ter um início? Não necessariamente…
As memórias inundam-me, as lágrimas inúmeros salpicos de um mar revoltoso e angustiante. Um cigarro na mão e um copo na outra, foi assim que sempre nos guiámos naquele mundo desconhecido a que chamam de noite, que pertence aos poetas e aos loucos (quanto a ti não sei mas nunca fui poeta…).

Foi assim que nos conhecemos menos o cigarro que já estava apagado e o copo que estava vazio (várias vezes). Numa festa em que a parte que melhor me lembro é a que menos consciente estava. Sentado na berma da estrada à espera da minha boleia para casa, sentaste-te ao meu lado com esse sorriso… E eu estremeci, fiquei atarantado, sem saber o que fazer, sempre me deixaste assim. Esbocei a minha melhor tentativa de um sorriso, e, pelo teu olhar, percebi que gostaste (Ufa…). Do nada pousaste a cabeça, e fechei os olhos, a eternizar o nosso primeiro “momento”.

Também o nosso primeiro beijo foi especial, no dia que foi e no local que foi… Contudo, o momento em que me apaixonei por ti foi com aquele sorriso, a tua cabeça no meu ombro, naquela festa cheia de gente que precisava de gente, e que na falta de gente conhecia gente.

Arrependo-me. Parecendo que não eu arrependo-me verdadeiramente. Porque depois de ti um beijo deixou de ter sentimento. Porque depois de ti o álcool perdeu o efeito. Porque depois de ti o cigarro passou a cigarros. Porque depois de ti o eu passou a eu.

PORPedro Catanho
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