Carta para a ex do meu namorado!

Quando o conheci ele falou-me bastante sobre ti, sabias? Nunca com um sorriso na cara, mas falou. Eu quis perceber melhor quem ele era e porquê, e ele fez-me a vontade depois de muito insistência minha e cheio de vergonha.

Falou-me do pior lado dele, da pior altura da vida dele, falou-me de ti. Aliás, fez-me perceber que todo o mal que lhe fizeste foi uma das razões pelas quais ele ficou tão fascinado por mim e quis ver até onde poderíamos ir. Sabes porquê? Porque, mesmo que inconscientemente, ele viu em mim tudo o que tu não és, nunca foste nem tão pouco tens capacidade para ser.

Ele começou por mencionar as tuas falhas fáceis, aquelas que ele estava disposto a aceitar de braços abertos para o resto da vida dele só por te amar; falou-me da tua falta de maneiras, dos pontapés que davas na língua portuguesa, da roupa que usavas tipo rapariga da esquina à espera do próximo cliente, da ausência de ambições maiores do que o teu curso de jardinagem que nem sequer conseguiste ou quiseste acabar.

Depois passou para as falhas mais graves, aquelas que o destruíam por dentro aos poucos, mas que não lhe davam força ou confiança nele próprio suficiente para te deixar para trás: as mil e uma vezes que tentaste terminar a relação, mas alguém te meteu juízo nessa cabeça oca, as mentiras constantes sobre as tuas companhias e os teus paradeiros, as tuas birras e chantagens emocionais sempre que ele não te desse o dinheiro que ganhava com dias e noites de trabalho ou servisse de motorista privado, e o teu súbito interesse por ele quando precisavas de alguém que te levasse para a cama e te fizesse sentir mulher (sim, porque não se nasce mulher, torna-se, e tu és só uma pobre miúda que nunca há-de passar disso e precisa de um homem para enganar a realidade durante um bocadinho). Era só isso que ele era para ti, não era? Uma conveniência que te garantia um carro, um ombro amigo, uma mesada razoavelmente boa e sexo. Ele no fundo sabia disso, mas, por um lado, escolhia ignorar os factos e, por outro, o teu género de “mulher” era tudo o que ele tinha conhecido até então. Ele achava-te tão perfeita, demasiado boa para ele, também porque tu fazias questão de o relembrar a toda a hora de que ele nunca arranjaria ninguém igual a ti. Tenho novidades para ti, amiga: ele arranjou muito melhor.

Agora vamos pensar. Sei que estás mais habituada a abrir as pernas do que a usar o cérebro, mas tenta. Se conseguiste manipular vários homens, alguma inteligência hás-de ter. No tempo em que tu rodaste três ou quatro “amores da tua vida”, ele esperou cautelosamente para voltar a dizer que amava alguém. Agora que o disse, foi a alguém que está com ele por querer e não por precisar. E tu? Podes dizer que encontraste alguém que te dá valor? Que te satisfaz, tanto na cama como fora dela? Que está contigo por amor e não por carência ou falta de auto-estima? Pela rodagem de “amores da tua vida” e choros repetitivos em praça pública não me parece. Fartaste-te de ter sempre o mesmo carro, foi? Ou foram eles que descobriram a tempo que tu de mulher não tens nada? De qualquer maneira, agora quem se ri sou eu. Não ele, porque, para ele, estares feliz ou infeliz é completamente indiferente. Ele já nem se lembra que tu existes. Essa é uma das coisas que eu admiro nele; ele não desiste facilmente das pessoas, mas, quando desiste, tem toda a coragem do mundo para seguir com a vida para a frente sem olhar para trás. Eu, por outro lado, agradeço-te a anedota que mostraste ser, pois não só adoro rir como tenho óptima memória quando magoam quem eu amo. Podes chamar-me rancorosa, arrogante, antipática e tudo o que se pareça com isso. Provavelmente terás toda a razão. Pelo menos não preciso de rebaixar, humilhar e roubar a auto-estima a um homem para que ele fique ao meu lado. Menos mal.

PORRaquel Simões
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