A Carta Que Não Pudeste Escrever (Avô)

Esta carta é diferente, é a carta que o meu avô teria escrito antes de partir, se tivesse tido a oportunidade. A carta que eu gostaria de ter lido. A carta que ele nao pôde escrever. As palavras que ficaram por dizer. O adeus que ele não disse.

Quero dizer-vos que vou embora, depois de me sentar no banco do café para jogar dominó com os meus velhos amigos, vou embora sem sequer ter tempo de jogar uma última partida.

É com tristeza que vou-vos deixar. Vou embora para um lugar bonito, ainda que distante daqueles que amo. Vou partir para aquele céu azul, nesta tarde de agosto em que o sol brilha intensamente e tão cedo não poderei regressar.

A vossa avó mora lá também e sei que me espera com um sorriso. Vou abraçá-la como gostaria de ter-vos abraçado antes de ir embora, vou abraçá-la com toda a força do mundo. Vou juntar-me a ela num lugar melhor e juntos seremos uma só estrela, a mais brilhante de todas.

Estamos longe, mas estaremos sempre presentes, no coração dos que nos amam, nas memórias que deixamos.

Estamos longe, mas continuaremos a cuidar de vós e a amar-vos. Não importa se a vossa idade avança e não tenhamos mais nada com que nos preocupar.

Enquanto aí em baixo, rezam pela nossa alma, lá em cima, pediremos aos anjos que cuidem de vós, que vos segurem, que vos mantenham firmes, por nós, que gostaríamos de aí estar, para vos segurar e dizer-vos que nunca podem desistir dos vossos sonhos e que não importa a cor do céu, só vocês são capazes de tornarem os vossos dias mais bonitos.

Peço desculpa pelos aniversários em que não poderei estar presente, espero que nos vossos corações a minha presença ainda vos preencha.

Peço desculpa pelas férias que não voltaremos a passar juntos.

Peço desculpa pelos passeios que não voltaremos a fazer.

Peço desculpa por não mais puder levar-vos ao lanche nas tardes de domingo.

Peço desculpa por não puder mais contar as minhas piadas, sempre repetidas, mas que sempre vos faziam rir.

Peço desculpa por ir embora tão rapidamente.

Peço desculpa pelo vazio que deixarei nessa casa, nesses corações, nas vossas vidas, um vazio que ninguém irá preencher.

Peço desculpa pelo silencio pelágico que terão de enfrentar quando souberem que não estou mais aqui.

Peço desculpa pelas lágrimas que ireis chorar quando souberem que parti.

Quero que saibam que onde estarei mais tarde, estarei a ver-vos crescer, acompanharei cada passo vosso mesmo de longe, cuidarei para que permaneçam no bom caminho, continuarei a amar-vos.

Estarei à espera de que um dia ainda que muito, muito, longínquo nos possamos reunir todos, nos possamos abraçar e falar das novidades e contar piadas outra vez. Estarei à espera de que a nossa família se reúna novamente à volta de uma mesa, num novo lar, num lar mais lindo do que aquele deixamos.

E mais uma vez, peço desculpa, desculpa por ir embora sem sequer puder me despedir.
Amar-vos-ei para além da vida,

Do vosso avô Francisco.
10 de agosto de 2009

 

PORLetícia Brito
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