Carta para a minha avó

Olá avó. Como estás?
Sabes, em 24 anos é a primeira vez que te trato por tu. Entristece-me saber que não estás aqui para me ouvir chamar por ti. Mas de que me vale isso agora, não é ?

Nunca te tratei por tu: “Olá avó, como está?”, não era frieza, mas sim respeito. E agora, talvez seja tarde demais para reflectir no número de vezes que te devia ter tratado por tu. Não era falta de respeito, mas talvez estreitasse os laços de proximidade entre nós.

Hoje não é só o céu que chora, eu também. Aliás, hoje todos nos choramos, e os que não choram: acredita que sofrem no interior. Mas ensinaste-nos a ser fortes, ensinaste-nos que não há nada que a força de vontade não vença, mas deixa-me dizer-te uma coisa, encontrei algo que a força de vontade não vence: trazer-te de volta.

Hoje tentei ver-te uma última vez. E vi. O médico abriu um fecho, destapou a tua cara e ali estavas tu. Antes de entrar no corredor pus o meu perfume, dizias sempre que eu cheirava bem, acreditei até ao último segundo que o meu perfume te traria de volta.

Beijei-te a testa e os teus olhos não abriram. Deixei que uma lágrima minha caísse no teu rosto e demorei os meus lábios nas tuas rugas, quis acreditar que a qualquer momento irias abrir os teus olhos e que irias dizer: “Oh minha espanholita! Estás mais magra, o que andas a fazer filha?”. Não abriste os olhos. Passei a minha mão pelos teus cabelos, que trazias sempre impecavelmente penteados, deslizei os dedos pelo teu rosto e pedi a Deus que te permitisse sentir-me uma última vez, sentiste?

Avó, acho que nunca te disse que te amava, mas amava e amo. Sabes, acho que existe um mal muito grande na nossa família: fazemo-nos de fortes e guardamos os sentimentos em silêncios, esperamos que as atitudes demonstrem aquilo que sentimos, mas às vezes faz falta ouvir um “Amo-te”, não faz? Agora não vou a tempo de o dizer, ou talvez vá, mas será que me estás a ouvir?

Pedi-te perdão quando me despedi de ti. Ouviste? Se ouviste, perdoa-me. Sei que rezavas por mim, eu vou tentar agora rezar por ti, mas sei que a religião não é o meu forte e acho que as palavras que escrevo chegarão mais rápido até ti do que as minhas preces aos deuses, por isso escrevo-te hoje e amanhã, talvez te escreva todos os dias porque sinto muito a tua falta e odeio-me por não te ter mostrado que te amava. Mas amava, e amo.

Dizem que quando as pessoas morrem vão para o céu, é lá que estás? Porque hoje olhei para o céu e estava Lua Cheia, acredito que o brilho que a lua tem hoje seja pela tua chegada, iluminavas uma sala, sabes disso?

Espero que vás até ao Alentejo, eu sabia que devia ter tirado uma semana de folga para irmos as duas, tu riste-te e disseste que sim, prometeste que ias ficar boa para irmos as duas, mas já não vamos, pois não?

Dizias-nos que éramos os teus ricos filhos e os teus ricos netos, nenhum de nós tinha grande riqueza, uma das poucas coisas que tínhamos de valor era o teu amor, agora faltas-nos, deixámos de ser ricos filhos, deixámos de ser ricos netos.

Sei que lutaste até ao fim, sei que te aguentaste tanto quanto te foi possível, sei que estás agora num sítio melhor e que não tens dores nem choras, mas o sítio onde nos deixaste não podia ser pior. Assim que partiste ficou um rasto de dor e de pesar, um vazio que nenhum de nós conseguirá preencher, vais faltar-nos sempre.

E os teus filhos: escondem a dor, porque os ensinaste a serem fortes, e eles são-no pelas mulheres e pelos filhos, teus netos. Estamos a tentar (sobre)viver, mas não está a ser fácil, sabes?

Se estiveres aí, se leres isto ou se por algum motivos conseguires ver o nosso sofrimento, não leves a mal, nem sintas que estamos tristes por teres partido, a verdade é que estamos tristes por não estares connosco. Sei que existe uma parte de nós que está feliz por saber que estás num sítio melhor, mas avó: morreste-nos!

O que fica agora? Uma casa desfeita, uma cama demasiado grande para um homem só, fica um lugar vazio na mesa, fica uma prenda a menos para oferecer no Natal, fica um vazio enorme nos nossos corações.

És uma mulher corajosa, sei que não tens medo, estejas tu onde estiveres, mas sabes avó: eu tenho medo, porque agora não há ninguém que reze por nós, e talvez fosses tu a cola que nos unia a todos.
Vamos sentir a tua falta, todos os dias. Por isso, estejas onde estiveres: toma conta de nós e protege-nos.

Com amor,

da tua neta.


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