Carta de uma jovem com leucemia em fase terminal…

Parabéns minha linda sobrinha!

Parabéns pelos teus tão aclamados e desejados 18 anos! Estás uma mulher!

Escrevi-te esta carta ainda estavas tu na barriga da tua mãe, já a pontapeavas com força, tive oportunidade de escutar o bater do teu coração através do ultra-som nas muitas ecografia em que essa tua mãe se fez acompanhar por mim.

Ainda tu davas chutos na barriga da tua mãe e já eu te amava com todas as forças do mundo, mesmo sendo eu uma pessoa já sem forças, na minha fase terminal.

Nunca tive oportunidade de te ver no teu primeiro dia de vida, nem nos que se seguiram.

Nunca tive oportunidade de te ver dar os primeiros passos, escutar as tuas primeiras palavras, nem tampouco te ouvir chamar “titi”.

Deus levou-me cedo de mais, não O culpo, não O julgo, nem estou chateada com Ele, se assim teve de ser, Ele o sabia melhor do que todos nós, que todos os dias questionamos a nossa existência.

Questionamos como o mundo nasceu, como surgiram os primeiros seres humanos, questionamos porque a terra gira em torno do sol e porque a lua nasce todas as noites? Questionamos porque as aves voam e os gatos miam? Tentamos buscar respostas para tudo, mas nem sempre tudo tem uma resposta.

Tal como a minha partida deste mundo para outro que acredito que é mais belo, atraente e acolhedor daquele em que vivo atualmente.

Sei que começaste a crescer e a questionar quem era a jovem morena dos cabelos longos que aparecia em todos os retratos de família espalhados pela casa.

Sei que começaste a crescer e a questionar porque no dia 21 de Abril, todos festejavam o aniversário de alguém que não estava presente.

Sei que começaste a crescer e a questionar porque no dia 9 de Dezembro, toda a família se reunia em silencio, visitava um jazigo no cemitério da aldeia, o adornava com lindas rosas brancas e acendia uma velinha para a jovem morena dos cabelos longos dos retratos em casa.

Sei que hoje és uma mulher e todos te explicaram que a jovem morena era a tua tia mais nova, que com dezasseis anos foi diagnosticada com LPA (leucemia promielocítica aguda), sei que te explicaram também que vivi um ano agonizante e que estava em fase terminal quando tu começaste a dar os primeiros pontapés na barriga da minha irmã.

Como eu queria ter tido a oportunidade de te segurar no colo e embalar-te, dar-te beijinhos repenicados na tua face corada e delicada, como eu queria ter tido a oportunidade de levar-te ao parque e andar de escorrega contigo mesmo que a lei o proibisse, como eu queria ter-te acompanhado nos teus primeiros dias de escola.

Deus sabe o quanto custa escrever esta carta, as lágrimas caem e vão encharcando a folha, mas encharcada já está a minha alma pela dor de nunca puder te abraçar, te beijar, te dar conselhos de tia, te segurar quando tivesses o teu primeiro coração partido, te incentivar a lutar pelos teus sonhos.

Peço-te desculpa por toda a minha ausência, sonhei contigo todas as noites até à minha última noite. Sonhei contigo e pedi a Deus que a ti desse a oportunidade de chegares aos teus 18 anos e os comemorares rodeada pela família, pelos amigos, talvez pelo teu namorado, oportunidade essa que nunca tive porque a vida me fez ir embora mais cedo do que eu esperava.

Confiei à tua mãe esta carta para que te fosse entregue hoje, que completas 18 anos. Peço-te desculpa por não ter escrito nenhuma antes, mas hoje és uma mulher, terás novas responsabilidades e eu quero assegurar que te tornarás uma mulher fantástica.

Acariciei-te todos os dias enquanto ainda dormias aconchegada na barriga da tua mama, acariciei-te todos os dias enquanto a vida mo permitiu. Hoje não posso mais.

Enquanto as lágrimas caem escrevo-te para desejar-te parabéns, que o universo conspire a teu favor e Deus te conceda toda a felicidade do mundo.

Já não estou aqui, mas escrevi para dizer, que amar-te-ei para além da vida, meu doce anjo.

PORLetícia Brito
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