Carta de um ex-marido

Maria, não vou dizer que fui um parvo e egoísta em vos deixar. Não o digo porque ambos o sabemos e, passados, estes doze anos, não vale a pena estar com desculpas.

Fui um merdas em te ter deixado com o Tomás, sozinhos e desamparados. Deixei-vos porque pensava que já não te amava como dantes. Mas, bem sabes que amava o nosso filho.

Eu parti com uma rapariga por quem pensava estar apaixonado. Eu parti e deixei a minha família por alguém que me seduziu. Eu parti e fui uma besta.

Só damos o devido valor quando perdemos, e acredita, eu senti muito a falta do Tomás. E a tua também. Senti falta de quando o meu filho corria para mim e me abraçava. Senti falta das nossas conversas. Senti falta do teu calor, do teu cheiro.

Passados alguns meses, o encanto por aquela rapariga foi-se e tive saudades da minha mulher. Mas sabia de não me irias aceitar de volta, sem mais nem menos. Pensei primeiro em aproximar-me do Tomás, com a esperança de ainda se lembrar de mim.

Fui ver um jogo de futebol dele, a sua paixão, mas não estava em campo. Fui novamente, mas nenhum dos jogadores era o meu filho. Nada mais restava a fazer senão ir a nossa casa. Fui, mas não morava lá ninguém.

Não sabia de vocês, e num acto de cobardia, voltei para aquela rapariga, por quem não sinto metade do que sinto por ti.

Escrevo-te passados estes anos todos, porque te encontrei. Quando estava com ela e a minha filha, numa esplanada, houve uma mulher que me chamou a atenção. Estava com um rapaz, e quando ela sorriu, quando ela sorriu, sabia que eras tu.

E então segui-vos. Durante um mês passei todos os dias pela vossa rua e parei em frente à vossa casa durante horas. Sabia as vossas rotinas, sabia quando chegavam e quando saíam.

Durante um mês, pensei em tocar à campainha, com esperança que me conhecesses. Mas eu não posso ser egoísta a esse ponto.

Escrevo-te apenas para dizer que não houve um dia em que não me lembrasse de vocês, de ti.

Com amor,

Pedro