Carta aos amigos que não tenho.

Lembram-se daqueles dias em que passávamos horas a fio numa mesa de café a desabafar sobre as nossas vidas? Lembram-se quando os namoros terminavam e a mesa de um café cheio de fumo era o nosso reconforto? Não sei se seria do cheiro a tabaco ou do perfume novo que um de nós trazia, mas o ambiente era acolhedor, sabia bem, não sabia?

Ainda me lembro quando deitava a cabeça no teu colo e chorava, não me perguntavam nada, mexias-me no cabelo com uma ternura inabalável e eu adormecia. Quando acordava tinham uma sessão de cinema pronta no sofá da sala: chocolate, pipocas, gelado e gomas. E um filme nada lamechas, não precisava disso, pois não?

Sinto falta desse carinho, do sentimento de pertença e de cuidado, sinto falta de ter alguém a quem possa realmente chamar de amigo, que esteja lá para mim no bom e no mau. Tenho saudades de uma mesa de café atolada de conversas e risos que nunca mais terminavam. Tenho saudades das noites que só terminavam quando era dia, não precisávamos de álcool nem de drogas, pois não? Bastava a companhia, a conversa que não tinha fim.
As noites prolongavam-se sempre.

A amizade mantinha as noites acesas, não era?

E agora?
Sinto-me deslocada, a toda a hora e a todo o instante. Não gosto das mesas de café nem das conversas quase sempre forçadas. Pego no telemóvel com as lágrimas nos olhos e percebo que não tenho ninguém a quem ligar para falar ou que me aconselhe. Percebo que estou sozinha, não é tão triste quanto possam pensar, mas sinto a vossa falta, às vezes, quase sempre, todos os dias. Ficaram pelo caminho, assim como a minha vontade de me enquadrar num grupo que não é o meu. Mas afinal, que grupo é o meu?

Talvez nem toda a gente tenha nascido para se encaixar num grupo ou na sociedade. Talvez nem toda a gente esteja destinada a fazer parte de algo. Acendo mais um cigarro e peço mais um café, finjo que estão comigo. E estão, não estão?

Existem pessoas que não foram feitas para ter amigos, digo eu às vezes, quase sempre, todos os dias.

Seja lá como for: tenho saudades da imensidão da amizade, estejam vocês onde estiverem e se ainda se lembrarem de mim, sinto a vossa falta.
Sejam felizes, às vezes, todos os dias.


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