Carta ao melhor Amigo!

Como tempo passa. Pudesse eu escrever em versos aquilo que tu és e o que significas para mim. Pudesse a vida ter capacidade para nos ensinar de que é feita a amizade, a essência de muita cumplicidade, o ingrediente principal do companheirismo, do respeito mútuo e termos alguém especial ao nosso lado.

Na verdade, as palavras faltam-me para falar de ti e do que nos une, porque à medida que a vida e a idade avançam as palavras vão tornando-se cada vez mais escassas e pequenas. Diz a matemática que as palavras são inversamente proporcionais à grandeza de quem gostamos. E tu sabes que eu gosto muito de ti, muito mais do que possas imaginar. Muito mais do que aquilo que o meu coração é capaz de dizer ou descrever.

Hoje acordei e sorri, tal como tu sabes que eu faço todos os dias pela manhã. Mas desta vez não sorri de uma forma qualquer. Hoje o meu sorriso amanheceu especial porque a ocasião assim o exigia. Hoje ele é tão maior como aquilo que nos une, não tem idade, não pode ser guardado porque é infindável; mas pode ser eternizado. Como a tatuagem mais profunda que deixaste em mim: a tua presença.

Daqui a pouco vou fazer como todas as manhãs, pegar no telefone antes de sair de casa e enviar-te a mensagem escrita de sempre, com a boa-disposição de sempre, com as saudades de sempre, para o encontro de sempre, hoje ainda com mais vontade. Para o pequeno-almoço juntos, que devia ser como o de sempre; mas hoje é diferente e especial. O orgulho em ti também deixou de ser o de sempre, para se tornar ainda maior e mais desmedido.

Levanto-me, visto-me e quando estava pronta para sair a correr, o telefone toca: és tu: Dás-me a ousadia da tua companhia?

Impossível não existir felicidade quando estás por perto. Desta vez não saí a correr, saí apressada, com vontade que o nosso abraço mais próximo se tornasse o mais profundo e sentido de todos. Mal podia esperar…

Lembras-te como tudo começou?

Na escola, éramos uns miúdos. Eu: a mais ajuizada, calma e ponderada, tu: o mais rebelde da turma. Aquele que adorava meter-se com as raparigas, aquele que passava o intervalo a jogar à bola, aquele que andava sempre às turras com os rapazes todos da escola: o mais irrequieto e rebelde.

Toda a gente me dizia que eu não devia ser tua amiga porque tu não eras amigo para mim, não eras uma boa influência; mas a cada dia que passava eu me aproximava mais de ti. Na verdade, não sei o que me fez gostar de ti, acho que sempre vi em ti o amigo que nunca tinha tido. E aconteceu.

Por trás dessa rebeldia, havia também muita sensibilidade e doçura pouco trabalhadas, havia uma essência por descobrir e eu consegui moldá-la e trazê-la de volta. Recordo-me das nossas tardes de conversa de miúdos nos baloiços do parque ou da escola. Nos intervalos da tarde, mesmo que não gostasses de andar de baloiço; mas andaste. Dos dias a jogarmos à bola, mesmo que eu não soubesse jogar e me atrapalhasse imenso com a bola nos pés; mas tu ensinavas-me pacientemente. E eu joguei sempre.

E naquelas férias em que brincaste uma tarde inteira comigo às bonecas? Tu preferias sempre ser o Ken, assim podias enamorar-te das bonecas todas. E assim crescemos, sempre juntos, a aprendermos aos poucos a sermos melhores, prontos para novas aventuras e aprendizagens. Mudamos de escola, mudamos de amigos, mudamos de interesses; mas se houve algo que nunca mudou foi aquilo que sempre nos uniu, o que sempre sentimos um pelo outro.

Mesmo em turmas diferentes, não nos víamos um sem o outro e cada vez passávamos mais tempo, juntos. Muita gente continuava a não compreender, o que me fazia prender tanto a ti, o que nos ligava assim de tão especial; mas a verdade é que a amizade cada vez era mais intensa e forte, a cumplicidade inspirava muita gente e se tu eras um puto rebelde, na adolescência mudaste completamente de postura, conquistando os mais resilientes.

Acabamos o secundário e escolhemos cursos diferentes. Havia muita coisa que estava prestes a mudar; por isso, decidimos passar as melhores férias de Verão – de sempre – juntos, partilhando histórias, momentos, inconfidências, medos, receios, sonhos. E o futuro, por vezes, assustava-nos pensar naquilo que nos poderia esperar dali a uns anos, se a nossa amizade conseguiria resistir às consecutivas mudanças.

Vivemos aqueles dias intensamente, como se não houvesse tempo, perdidos nas horas e nos dias, sorrindo, gargalhando, dando inúmeros mergulhos, saindo com amigos e aproveitando ao máximo os vários pôr-do-sol que o melhor da natureza nos foi oferecendo.

E depressa a vida nos voltou a pôr à prova: mudamos de cidade, a distância e a ausência tornaram-se as nossas maiores inimigas, e a saudade a melhor amiga. No entanto, acabei por ir percebendo que muitas vezes aquilo que por vezes nos separa também nos pode unir ainda mais.
E assim foi…

O tempo foi passando e de adolescentes, transformamo-nos em adultos sem nunca nos deixarmos perder de vista, fintamos sempre os nossos compromissos, de forma a podermos ter tempo para estarmos juntos. E isso prolongou-se até hoje.
Ninguém daria nada pela nossa amizade, diziam que tínhamos personalidades demasiado diferentes para serem compatíveis com uma singela amizade. Que as diferenças nunca unem pessoas; felizmente, nós acabamos por provar a todos precisamente o contrário.

Enquanto percorro o caminho até ti, a minha cabeça parece encontrar-se num verdadeiro turbilhão sem fim de emoções, dando voltas e mais voltas: uma autêntica revolução. Á medida que vou recordando todas estas memórias nossas, como se fosse uma bobine de um filme.

Quero chegar a ti, para poder dar-te o abraço que hoje mereces mais do que nunca, quero poder olhar-te no fundo dos teus olhos e ver neles a intensidade do nosso percurso e a felicidade que isso nos oferece. Quero celebrar ao teu lado, aquilo que mais nos uniu, o que nos podia desunir, mas que acabou por não acontecer. As nossas aventuras, as nossas pseudo-zangas, as nossas conversas, os nossos segredos, as nossas partilhas e os nossos momentos. Se é para celebrar, celebremos tudo.

Quero que me faças rir mais do que nunca, e acima de tudo que a partir de hoje cada dia continue a contar. E que nós estejamos cá para os viver. Um por um.

Porque na amizade… todos os dias contam!

PORAna Ribeiro
FONTEEscreViver
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