Carta aberta ao Mundo!

Mais uma vez somos confrontados com o verdadeiro significado de barbárie. Desta feita em Nice. Mais de 70 mortos.

Sem contar com os 89 mortos em Novembro passado só no Bataclan, em Paris. 35 mortos em Bruxelas. 42 mortos em Istambul, no aeroporto Ataturk. 70 mortos em Lahore, Paquistão. Istambul novamente, 4 mortos.

O Ministério do Interior turco identificou Efkan Ala como o autor do atentado suicida que matou três israelitas e um iraniano. Peshawar, Paquistão. 15 mortos. Ancara, Turquia, 37 mortos. Grand-Bassam, Costa do Marfim, 37 mortos. Shabqadar, Paquistão, 13 mortos. Mohmand, Paquistão, 9 mortos.Ancara e Diyarbakir, Turquia, 37 mortos.Jalalabad, Afeganistão, 9 mortos. Daguestão, Rússia, 2 mortos. Mogadíscio, Somália, 1 morto. Damasco, Síria, 8 mortos. Dikwa, Nigéria, 60 mortos. Yahyakhil e Balkh, Afeganistão, 9 mortos. Cabul, Afeganistão, 10 mortos. Damasco, Síria, 70 mortos. Ninive, Iraque, 1 morto. Borno, Nigéria, 85 mortos. Mogadíscio, Somália, 20 mortos. Charsadda, Paquistão, 21 mortos. Cabul, Afeganistão, 7 mortos. Ouagadougou, Burkina Faso, 29 mortos. Ceel Cadde, Somália, 61 mortos. Jacarta, Indonésia, 12 mortos. Çinar, Turquia, 6 mortos. Quetta, Paquistão, 15 mortos. Iraque, 23 mortos. Bagdade, Iraque, 18 mortos. Istambul, Turquia, 10 mortos. Quetta, Paquistão, 4 mortos. Zliten, Líbia, 47 mortos. Ras Lanuf, Líbia, 6 mortos. Síria, 5 mortos. Pathankot, Índia, 7 mortos. Telavive, Israel, 3 mortos. Cabul, Afeganistão, 2 mortos.

E isto é só desde o início deste ano. Desde 2014, uma constelação de grupos levou a cabo mais de 190 ataques em todo o mundo que resultaram em 7000 mortos, sem contabilizar os milhares de feridos.

Vem a compaixão, a pena, novamente a surpresa familiar de mais um atentado emitido em directo, vivo e a cores, com as habituais imagens que podem ferir a susceptibilidade dos espectadores.

“Que m****, outra vez!? Como é possível? Bárbaros!” Depois vem a revolta visceral enquanto as imagens se sucedem e ficam na retina. Por mais 1 dia ou 2, as discussões de chat, os posts no Face and… we´re done!

As imagens felizes voltam, as piadas sardónicas multiplicam-se porque a vida tem de voltar ao normal sob a premissa de que a melhor defesa ante a barbárie e a atrocidade è mostrarmos que ninguém nos tira a possibilidade de viver sob o desígnio da liberdade, o derradeiro bastião que nos distingue dele.

Pensar no assunto? Ain´t no time for that!

Uma pergunta pertinente é: “Somos assim tão diferentes deles?”

Em ideologia, diria que sim. Igualdade, liberdade, fraternidade. Made in France. Por isso também é que os franceses são atacados profusamente. Porque aí residem os valores do “Ocidente”, que eles vêem como legitimamente nossos.

Agora vejamos na prática. Que no fim do dia é o que importa. Igualdade. “Em 2016, 49,27% da riqueza mundial estará nas mãos de apenas 1% da população”, citado de um relatório da organização humanitária Oxfam. Cá pela Europa, “o velho continente”, a professora admirada pela História, o “défice de bom senso”, citando o Wall Street Journal, caracteriza-se por uma posição de imposição, arrogância, prepotência, como se estivéssemos a jogar um Euro com uma metade do continente inclinada para o Sul.

Os bad boys, os rebeldes contra os betinhos do Norte, os primeiros da fila, que tiram sempre as boas notas e que lá vão empurrando a Europa para longe do abismo. Do abismo económico, dos défices excessivos, porque do abismo ideológico são culpados e têm isso estampado na testa com letras grandes. Os valores humanistas e de cooperação, regidos pela preservação dos direitos humanos, a democracia real e a coesão económica e social, foram triturados e substituído pelo novo Tratado Orçamental, curiosamente estabelecido em Lisboa. Parece fado mesmo. Portugal tem destas coisas.

Continuando…

O Tratado Orçamental está para a Europa como a Tabela Periódica para os químicos. E tendo isto por base, infelizmente temos uma relíquia da Segunda Guerra Mundial no comando dos destinos da Europa. Wolfgang Schäuble, senhores e senhoras. E há coisas que não mudam, ainda que tenha vivido a história da guerra e na verdade tenha sido vítima dela mesmo.

Talvez por isso seja um homem revoltado e amargurado e que, em determinada altura da sua vida, tenha perdido a capacidade de dirigir o seu próprio destino ao ser posto numa cadeira de rodas enquanto vítima de um tiro. Inevitavelmente, temos a mão dura de quem detém o poder económico, e por isso o maior e derradeiro poder. Ele é a figura, mas não a génese do problema, e exibe-se pelos corredores do parlamento, pavoneando-se como que esperando a vénia.

E claro, quando a austeridade é a palavra do dia e quando se sanciona e pune os mesmos, inevitavelmente a revolta, as diferenças sociais e económicas tornam-se clivagens do tamanho do Evereste, por vezes irreversíveis, o nacionalismo cego camuflado de patriotismo, a xenofobia, o racismo voltam em peso e em grande. E claro, a ajudar a festa, o jornalismo fetichista actual. O fetiche pelo Robin Wood. Os que mostram que isto tudo anda uma valente m****, ingovernável, e que temos comido gelados com a testa, não 1, 2, mas com muitas bolas enquanto nos passam a mão pela cabeça, como que nos entretendo na nossa confortável “conformidade”.

E eis que as hienas vem a sua possibilidade, mesmo a frente dos nossos olhos. Com um discurso sedutor e populista, que incha o ego e parece sarar o orgulho ferido de uma nação, que parece oferecer a solução onde os outros falharam, eles continuam a ascender e a ganhar espaço na nossa sociedade.

E claro, criam-se fendas, feridas novamente abertas, e eis que lá fora também olham e fazem como nós. Ou nós como eles, já nem sei. Trumps nos EUA, Maduros na Venezuela, e a lista continua por aí afora. Grupos terroristas aproveitam a oportunidade e alargam essas fendas, e eis que parece que chegamos a um impasse. Já não sabemos o que fazer mais. O que se pode fazer? por um lado, queremos o país de volta e no entanto somos nós que criamos as tais fendas. Se esperamos que os políticos resolvam, esqueçamos. São políticos.

Não quero saber, estou nem aí. Mas se temos responsabilidade no problema, somos em simultâneo parte da solução. Faltam humanistas, pessoas com visão, que vendo as peças do puzzle, consigam pelo menos vislumbrar o cenário mais à frente. Faltam referencias credíveis e coerentes que nos devolvam essa visão. E com isto, mata-se logo dois coelhos: igualdade e fraternidade. Tau.

Liberdade agora. Dá-me cólicas só de pensar no assunto. Dava para outro texto igualmente extenso ou mais, mas serei breve. Que liberdade é que queremos? Acho que sabemos os extremos em que vivemos. Sem liberdade, somos escravizados mas em total liberdade, é impossível viver. O ser humano, à luz das ideologias sociais actuais, precisa de referencias ou fronteiras de ser, onde a sua acção se desenrola, a fim de percepcionar o seu campo de acção ante os outros, proporcionando assim a convivência social aceitável, conjugando assim vontades, opiniões, acções.

Assim parece ser mas a experiência da vida é mais complexa e atribulada do que isto. Entre isto e aquilo, existe uma palete de tonalidades. Até onde cada um de nós está disposto a entrar neste parque de diversões para viver esta montanha russa de emoções, hesitações, esperanças, dúvidas, anseios, enquanto respeitando o espaço do outro? E a derradeira questão: quem somos nesta palete de cores e tonalidades?

O problema, na minha opinião, é que ninguém sabe o que quer na verdade e a futilidade é como ar que se respira. Somos demasiado “heliocêntricos”, pensando que os outros é que tem de se moldar a nós. Porque, sejamos honestos cada um de nós é feito de opiniões muito pouco flexíveis, custa muito mudar a opinião ainda que possamos reconhecer os méritos da opinião do outro, a humildade e a capacidade de aceitação agora se vestem de pele de cordeiro. Me, me, mini-me. Andamos cheios de alter-egos por aí, não pessoas descidas à terra. Preferimos o momento em que a Kardashian mostre uma parte do seu corpo ou a falta dele, dependendo se se recorreu ao photoshop ou não, do que um acto de generosidade vindo de um qualquer canto do mundo, quem sabe dos campos onde estes milhares de mortos e feridos são obrigados a viver e morrer.

Que nos devolva alguma esperança e nos dê a motivação necessária de que juntos podemos se acreditamos na causa e trabalharmos juntos. Um pouco à semelhança do Euro 2016. Falta fé. E não é a religiosa. É fé na humanidade. É fé em nós próprios. É a fé que nos faça mover e fazer. No entanto, o mundo aplaude e sorri… e partilha, e gosta, e adora, e se ri. As possibilidades são tantas que descobrir “o” caminho se torna difícil, e por conseguinte, comportamentos desviantes tornam-se mais propícios na falta de orientação.

Mas mais uma vez, somos culpados. Não nos instruímos, não procuramos formular verdades que nos tornem mais humanos, mas antes a verdade que melhor se adapta as nossas verdades-pilares. Que trave o tal heliocentrismo. Não procuramos, acreditamos naquilo que queremos. E o primeiro que fizer sentido ganha, neste mar de opiniões em que vivemos enquanto “surfamos” os jornais, net, o que for.

Este ódio social provém, antes de mais, da ignorância ideológica que nos impele a ser sectários, racistas, movido por um sentimento de superioridade. E nem nos apercebemos que somos indagados a acreditar no seio de uma cultura que nos impõe tudo e todos, por vezes seja a que preço for. Raças, etnias, crenças. Ninguém nasce com predisposição genética para hierarquizar a sociedade desta forma, portanto é a cultura actual que nos molda, que se impõe por osmose.

Somos emocionais movidos a instintos com uma racionalidade descartável e pré-concebida pela cultura em que nos movemos, o conceito de “livre” por estes dias.

Igualdade, fraternidade, liberdade andam de mãos dadas mas ultimamente a lepra ideológica e económica, mais uma vez, ameaça decepar as mãos que as deviam unir. Mais uma vez, porque a historia já nos ensinou isto. Mais uma vez as semelhanças com a história reptem-se. Mas e mais uma vez, vamos sorrindo estupidamente, como se nada se passasse no nosso pequeno mundinho.
E que ninguém me chateie.