Carta à minha mãe no piano da noite…

Mãe, a palavra com vogais e consoantes. Palavra com aromas próprios, o aquecedor da alma. É o lençol fresco da primavera, a partitura da quietude que nos adormece. É o segredar dos sons da vida, na doçura do bailado da vida. É a casa da árvore das noites em que as lágrimas são um imperativo. Ser progenitora, é ver nos olhos um refrão daqueles que começam a vida, num choro de dois pulmões. É ser um regador na arte de florir a vida, de dois pares de mãos que se encontram e que se prometem amar eternamente. Mãe e filho.

É o dilúvio da protecção, o improviso na gaguez. É o improviso de histórias, no momento em que descobrimos que somos escritores de coisa nenhuma. Ganhamos a voz dos que embalam a vida. A fábrica onde tudo se fabrica, para rimar com sossego. É o olhar onde acordamos os nossos sonhos. Uma mãe é a felicidade no singular, é o agasalho das palavras. Recebe palavras em troca de vida. É a vontade de baloiçar a idade. É ver um filho, a passar o rio, o mar, aproximá-lo do futuro com um abraço todos os dias à espera. É ver a solução, nos olhos a lacrimejar, no corpo que começou a soluçar nos primeiros versos da vida. É o amor que se propaga na solidão, de tudo estar por nascer, por não se saber mais do que escrever. A única pessoa que sabe olhar para dentro de nós.

É a pele da cor do céu, é a alegria na tristeza. Quem sabe hei-de aprender a ser feliz como tu, para ti. És o brinde dos meus dias, e às vezes esqueço-me que és mãe, porque é tão pouco para quem me tirou o medo do escuro. És o princípio da minha vida, és o beijo na testa que espero sorrateiramente todas as noites.

(P.s: És aquilo que acredito, és o colo da esperança .És tudo o que tem de ser olhado com paixão . És quem acompanha a minha mudança de alma . És a maestria dos dias inteiros que nunca resisti a amar-te )

Da tua filha

PORSofia S
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