Carta à minha ex melhor amiga!

Cara ex “melhor amiga”,

Não sei de que modo iniciar este desabafo, não sei de que modo começar a escrever sobre algo que já findou. Só sei que nunca pensei escrever nada negativo inspirado em ti, em nós, na nossa história, na nossa amizade. Não era suposto alguém a quem eu atribuí o título de melhor amiga abandonar-me desta forma, numa altura destas, como tu o fizeste. No entanto aqui estou eu, a digitar umas letras pretas sobre um fundo branco, a relatar aquilo que nós fomos e sei que nunca voltaremos a ser.

Pergunto-me qual terá sido o verdadeiro motivo que fez com que perdesses o interesse em manter uma amizade comigo. Pergunto-me quem terá ocupado o meu lugar no teu coração, quem te terá dado mais atenção, quem se terá preocupado mais contigo, quem terá sido carinhoso contigo, quem te terá limpado as lágrimas, quem terá ouvido os teus desabafos, quem te terá conquistado, quem te terá dado conselhos, quem me terá conseguido substituir de forma tão exemplar que te tenhas querido livrar de mim. Pensas que acreditei na desculpa que me deste? Tretas! Eu sei bem as atitudes que tive, sei que não errei como dizes ter errado e, acima de tudo, sei que pedi desculpa – mesmo sem saber bem porquê – e lutei pela nossa amizade, coisa que tu não fizeste, nem demonstraste ter interesse em fazer.

Sabes o que custa mais? Olhar para as lembranças, as memórias boas, e perceber que nada daquilo se irá repetir. Olhar para ti todos os dias e não poder ter as conversas que tínhamos, não podermos juntas chorar a rir ou sorrir entre o choro. Olhar para ti, lembrar-me da pessoa que eras e ver a pessoa fria em que te tornaste. Olhar para ti e ver a indiferença com que me tratas. Sabes? Sempre me disseram que era muito pior perder uma amizade que um amor, mas eu sempre achei que não passavam de frases feitas. Hoje olho para a dor que sinto, a mágoa, a revolta, a desilusão, e apercebo-me que, se é que são frases feitas, foram feitas por alguém que deve ter perdido alguém tão importante como tu eras, és e serás sempre para mim. Apesar de toda a revolta, não te consigo odiar. E isto é uma merda sabes? Todos os dias querer seguir em frente, querer ficar zangada contigo, querer gostar menos de ti, e em vez disso só ter cada vez mais e mais saudades de tudo aquilo por que passamos. Eu sempre disse que a amizade, sendo verdadeira, é uma das várias formas de demonstrarmos que amamos alguém, obrigada por teres sido tu a inspiração para essa frase.

Porque é que tiveste que preferir o teu orgulho à minha presença na tua vida? Que vou dizer agora aos meus pais? Que não vens cá a casa porque começaste a namorar e não tens tempo para isso? Tretas, eles sabem bem que os adoras e que adoravas vir cá a casa, para passarmos a noite a ver filmes, rir até de madrugada e comermos porcarias sem nos preocuparmos com os números da balança! Que dirás tu aos teus pais quando eles te perguntam por mim? Será que falas mal de mim, ou será que, tal como eu, mesmo depois de tudo me consegues respeitar e preservar a minha imagem? Que vou dizer à tua mãe quando ela passar por mim na rua e me perguntar se está tudo bem? Que lhe vou dizer quando ela me voltar a dizer para cuidar de ti? É suposto dizer a verdade, ou deixá-la continuar com a imagem de filha exemplar que tem de ti?

Juntas já viajamos, choramos, rimos, tivemos momentos de enorme felicidade, tivemos discussões estúpidas, partilhamos desabafos, segredos… Lembras-te daquela festa em que bebeste até cair para o lado e eu te segurei no cabelo enquanto vomitavas e te levei a casa e ajudei a tua mãe a vestir-te o pijama? Claro que não lembras, aliás, dessa noite não te deves lembrar de muito. No entanto foi nessa noite que o álcool falou por ti e disse que me adoravas e que eu era a melhor pessoa da tua vida, e eu, feita burra, acreditei nele. Irónico, não? Logo eu, acreditar numa coisa que alguém que bebeu demais estava a dizer. Lembras-te das serenatas que me fazias? Das vezes em que nos púnhamos sentadas no baloiço a contemplar as estrelas? De quando eu já estava deitada, quentinha, com o meu pijaminha vestido e me disseste se queria ir ter contigo? Era uma noite fria de dezembro, mas mesmo assim eu fui. Lembraste dos abraços que te dei quando acabaste com o teu ex? Lembraste das lágrimas que já te limpei? Lembraste das vezes que já te tirei de casa quando me dizias que andavas a discutir muito com o pessoal daí de casa? Lembraste das vezes em que encobri as tuas mentiras e servi de desculpa para ires ter com outras pessoas?

O pior de tudo é que eu lembro-me de tudo e voltava a fazer tudo por ti outra vez. Sabes porquê? Porque os meus “adoro-te imenso miúda” eram sinceros. Porque eu sempre te dei tudo o que podia, sempre te apoiei como podia, sempre fiz tudo o que estava ao meu alcance por ti. Porque eu sempre te admirei e sempre fiz por te demonstrar o quanto eras (e és) importante. Não sei se esta carta irá chegar até ti, não sei se irás enfiar a carapuça e perceber que isto tudo que aqui está escrito é tudo aquilo que te tenho tentado dizer, mas não tens ouvido por falta de atenção e interesse. Não sei se irás saber que sou capaz de gritar ao mundo que foste a melhor amiga que alguma vez tive. Não sei se irás ter a noção que és a irmã que eu nunca tive. No entanto eu tinha que escrever isto, não conseguia guardar isto mais tempo cá dentro. Será que algum dia irás ser sincera comigo e admitir que sentes a minha falta? Será que algum dia irás correr atrás de mim como eu já corri (inutilmente) atrás de ti?

Sabes, as pessoas têm-me dito “Abre os olhos. Olha para ela: só demonstra que está bem sem ti, por isso faz por estar bem sem ela!”, mas as pessoas não sabem o que dizem. Não sabem olhar para os teus olhos e ver a saudade espelhada neles. As pessoas não te conhecem como eu conheço, ou julgo conhecer.

Para terminar quero-te pedir, em nome do tempo que vivenciamos juntas, que sejas muito feliz, que lutes sempre pelos teus objetivos, que continues forte, que apoies sempre os teus, que continues a ser um orgulho para aqueles que têm o prazer de te conhecer de perto, que continues a lutar todos os dias para ser alguém melhor e que um dia fales aos teus filhos na minha passagem pela tua vida como algo bom, algo que gostarias de voltar a experienciar.

Não te vou pedir para a nossa amizade voltar ao que era, porque isso tornar-se-á difícil. Digo-te apenas que, se quiseres, estarei aqui sempre de braços e coração abertos para te receber de volta na minha vida. Conta sempre comigo, para tudo aquilo que precisares.

Um beijinho e um xi-coração daquela chata, que sabes que te adora.

PORA. Q.
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