Caramba, Mãe!

Já não aguento. Desculpa, mãe, estou farto. Estou farto da vida que está para vir, da vida que me obrigam a ter. Estou farto das mesmas conversas, das mesmas palavras, dos mesmos sermões. Estou sufocado, farto, asfixiado, desta vida que nem é vida nem é nada. Não estou farto das obrigações, estou é farto de ser obrigado. É como se, por si só, a vida não fosse suficientemente ingrata. E no entanto, para lá das injustiças, vens-me tu sempre com mais do mesmo. Que não faço nada, que nunca podem contar comigo para nada, que preciso de um emprego, de um part-time, tudo isto, assim, sempre, todos os dias, a mesma coisa, as mesmas palavras, sem que no entanto tenham, alguma vez, mudado algo. Que nem mudam. Nunca mudaram. Nem nunca vão mudar.

Mas, Mãe, sabes ao menos porque é que as tuas palavras não mudam nada, porque não te calas, tal e qual, porque de uma maneira ou de outra, em vez de ajudarem, não, apenas desestabilizam. Como é que nunca te apercebeste disso, que a mesma conversa só atrapalha. O que é preciso é alguém que fale, e depois se cale, deixar que o tempo, o silêncio, e a idade, pesem. Porque pesam, disso te garanto. Um dia, Mãe, quando te calares, quando perceberes que a vida leva tempo, e que o tempo leva a vida, vais entender que as palavras foram tempo perdido. Se calhar até já era um homenzinho, à minha maneira, às minhas custas. Se calhar, Mãe, quem sabe, já tinha um emprego, e já era licenciado, se calhar, só se calhar, hoje já não era preciso repetires sempre a mesma coisa. Mas quê, ao invés disso, ando aqui, nesta corda bamba com tudo por um fio, tudo suspenso por um quase, que não sendo mais do que quases, serão nada. E como ninguém se cala, ando eu aqui, sem saber se a culpa é minha ou vossa, se é falta de tempo ou falta de concentração, sem saber se faço isto por mim ou por favor a alguém. Como se o devesse mais a vocês do que a mim. O pior é depois; é ver o teu sorriso estampado quando digo que consegui, mas epá, caramba mãe, consegui porque não liguei às tuas palavras, porque soube dizer não quando definitivamente precisei do tempo para mim. Consegui, Mãe, porque falhei. Consegui porque cai sozinho, e porque me levantei sozinho.

Às vezes, Deus que o diga, apetece-me mesmo é ir embora, e dizer-te: não me apareças à frente no dia em que eu me licenciar. Ou então: não me apareças à frente no dia da apresentação do meu livro, que as tuas palavras de mãe que se orgulha do filho, só quando o filho consegue, não me valem de nada. Porque quando devias ter entendido que precisava daquele curto espaço de tempo, quando eu precisei de um pouco de harmonia, de nada que me inquietasse, estavas mais focada em deitar-me abaixo. Porque, afinal, deitar abaixo é o que é preciso, não é mãe, porque o dinheiro, a comida, e a roupa lavada são tudo, não é mãe. E no final dizeres que ajudaste. Mas, e o resto, mãe, e aquilo que só as mães dão, e a compreensão, e a força, e o “tu és capaz”, e o “vamos lá filho, é um último esforço”, e a calma na hora de aconselhar, e a serenidade, onde é que andaram estes anos todos. Nem agora, que é a recta final, que é o tudo-ou-nada, nem agora, mãe, caramba. Pelo menos agora, mãe, para que no final, falhe ou concretize, eu te agradeça. Pelo menos agora, mãe, se não tiveres apoio para me dar, deixa-me em paz, deixa-me dizer que tentei e, se falhar, culpar-me, que tenho vinte e cinco anos. Depois vê-se, mas por amor de Deus, deixa-me ter a certeza que tentei. Por favor, mãe, se for para falhar, que falhe sozinho.


PELA WEB

Loading...