Cancro da Alma!

A vida consome-nos lentamente, é o demorado beijo da morte que nos rouba o fôlego durante anos até que, certo dia, nos leva. Mas, mesmo assim, nós queremos viver. Porque é a viver que existimos; ou pelo menos, é assim que pensamos. Porém, viver implica muitos males… e o amor é um deles.

Somos racionais durante toda uma vida, até que chega alguém e nos desconcerta. Um olhar, um sorriso terno, uma voz profunda e uma luz radiante; um ser que nos deslumbra por ser simplesmente como é. E nós sentimo-nos estúpidos, afinal como pode alguém amar tão facilmente? Como se pode abandonar a razão com tanta facilidade e sangue frio? Parece uma estupidez. É uma estupidez. Mas, mesmo assim, continuamos a fazê-lo.

Há quem demore anos a amar quem tem ao lado e há quem demore segundos a amar quem nunca conheceu, a amar uma idealização da mente. E há quem se apaixone por letras, quem receba uma carta e entregue o coração a quem lha escreveu, e quem se apaixone por vozes, por quem lhe fala desde longe através de um pedaço de tecnologia. Depois, existe quem se apaixona por aquela pessoa que viu passar no parque, por aquela figura que se sentava sempre no mesmo banco e sorria enquanto contemplava o céu. E quem se enamore daquela figura que pintava quadros e escrevia mil e um textos de amor, quem se renda perante o talento alheio. O amor é bicho de muitas formas, um metamorfo medonho.

Mas apesar de todos os seus tipos e de todas as formas que existem de se amar, o amor tem uma base cruel e quase que sádica. Tem um componente venenoso que corrói as entranhas dos apaixonados e os vai desgastando lentamente. Esse componente chama-se solidão. A solidão à qual todos se confinam quando estão apaixonados. A solidão à qual se entregam as almas rejeitadas e aquelas que já perderam o seu amor. A solidão que sufoca e tortura, que grita «Jamais será real» e que faz de tudo para usurpar a esperança da nossa medíocre humanidade. O maldito sentimento que leva à loucura qualquer um e que condena à morte aquele que amou verdadeiramente e caiu em desgraça ao ser vítima de traição. Relembremos Pedro da Maia, personagem do romance de Eça de Queiroz, que após ter amado com perdição a sua mulher e ter sido abandonado e trocado por outro homem decide cometer suicídio. Ou Mariana, personagem do romance de Camilo Castelo Branco, que ao ver o seu querido amor (amor que jamais retribuiu o seu sentimento) morrer, se lança para o meio das ondas e se deixa morrer junto ao cadáver dele. Vítimas da solidão criadas e imortalizadas nas suas histórias fictícias por escritores que compreendiam muito bem o lado negro do amor e a vil solidão que sob ele se escondia. Vítimas que retratam muitas vezes a realidade de alguns amantes e a vontade de muitos outros.

Quantos de nós não se atirariam ao mar por amor? Quantos de nós não cometeríamos uma loucura ao sermos abandonados? Quantos de nós não daríamos metade da nossa carne e do nosso ser para preservar aquela pessoa amada? Apenas alguns, felizmente. Se assim não fosse a Humanidade ter-se-ia extinguido há séculos atrás.

Apesar de todas estas vítimas mencionadas do amor e da sua solidão, quem mais sofre é quem não se confessa. Quem ama em segredo e teme dizê-lo, e quem ama, mas não quer aceitar que está a amar. Quem se sente demasiado ridículo por sentir algo incompreensível e repentino como o amor. Quem se sente perdido ao admirar com loucura determinado ser sem ter uma razão ou um motivo. Esses são aqueles que caem em desgraça; são o soldados que tombam no campo de batalha e ficam à mercê da afiada lâmina de um machado. A solidão corrompe-os. Consome-os. Obriga-os a procurarem conforto num outro lugar. Obriga-os a fugir para longe! Faz com que se percam! A solidão acaba com esses amantes enfermiços, condena-os à loucura, ao medo, à insegurança e à tristeza. Faz com que eles jamais encontrem o caminho de volta; reduz todos eles a pó.

Quem hoje aprecia a solidão, quem nunca caiu em garras dilacerantes de amor, vive beijado pela sorte. Embalado nos braços de Deus e apaparicado docemente pelo destino. Muitos amores existem! O que se nutre por uma mãe e por um pai! O que se nutre por um irmão! O que se nutre por um avô ou uma avó, por um animal e por um amigo! Mas nenhum deles é tão macabro e tão mesquinho, tão sádico e metódico, como o pecaminoso amor dos Homens. Como o amor que quer carne com carne, que clama por calor e por abraços ao amanhecer! É feliz quem nunca o conheceu, quem vive apenas com as outras estirpes de tamanha e maldita doença.

O amor é o cancro da alma.