Caminhava eu lentamente…

Caminhei lentamente pensando no quanto a minha vida tinha mudado no espaço de um mês. Chutei uma pequena pedra para a frente e surpreendi-me quando ouvi o barulho
dela em contacto com a água. Estava tão profundamente envolta nos meus pensamentos
que não me tinha apercebido que me encontrava agora na margem do rio que traçava o
limite do território pertencente a Townsville.

O sol já não ia tão alto no horizonte. Sabia que em breve não tardaria a escurecer e
Hastan tinha-me deixado a indicação expressa de voltar para a aldeia antes de isso
acontecer.

Virei-me para ir embora, mas não cheguei a sair do mesmo lugar.
Do outro lado da margem encontrava-se um grande lobo negro que me fitava. Mesmo
estando distante, eu conseguia reconhecer o brilho gélido dos seus olhos azuis-escuros.
O seu pelo brilhava mesmo sem a iluminação do sol, e quando dei por mim já me tinha
aproximado o suficiente para sentir a água fria a tocar-me nos pés. Sentia o coração um
tanto ou quanto alvoraçado. Aquela criatura parecia chamar-me silenciosamente.

O lobo baixou a cabeça lentamente, os olhos fixos nos meus como se tivesse medo que
eu me assustasse com algum movimento mais brusco.

Começou a caminhar na minha direcção e embora sentisse o pânico a invadir-me, não me
consegui mover.

O silêncio parecia ter-se instalado e eu sentia-me como se estivesse a ser envolvida por
um sonho.
Só quando barulho de algo a chapinhar na água me chegou aos ouvidos é que acordei e
para meu horror vi que o lobo encontrava-se agora a pouco mais de um metro de
distância.

Contudo, um pensamento assaltou-me e não consegui evitar de o fitar enternecida. Fora
ele que me salvara do outro Lycan que me tentara atacar. Sabia que estava a cometer
uma loucura ao deixar que ele se aproximasse assim tanto, mas a verdade é que não
conseguia perceber como é que uma criatura tão bela pudesse de alguma forma fazer-
me mal. Ergui lentamente a mão. Queria tocar-lhe. Queria de alguma dar-lhe a entender
que estava agradecida por o que ele tinha feito.

O lobo permaneceu imóvel perante o movimento, os olhos azuis perturbadoramente
fixos nos meus. Estiquei o braço, hesitante e automaticamente, viu-o a regressar á sua
forma humana.

O meu coração quase que parou, quando encarei Shane.
– Nunca faças isso.

Encolhi-me ligeiramente com o seu aviso gélido.
– Porquê?
– É uma ofensa para um Lycan deixar um humano fazer-lhe festas.

Engoli em seco.
– Porquê que me salvou?
– Tenho ordens para proteger-te.
– Quem é que quer que me proteja?

Vi os olhos dele a adquirirem um brilho estranho.
– O teu futuro marido.

Fitei-o atónita.
– E quem é o meu futuro marido? – Perguntei. Mas Shane não me respondeu.

O barulho das folhas secas a estalarem chegou aos meus ouvidos e eu tive a certeza de
que alguém se dirigia para ali. Virei-me para trás bruscamente. Se alguém me visse
naquela situação, sabia que teria problemas inimagináveis.

No entanto, quando me virei de novo, pronta para expulsar Shane, vi que ele já não
estava lá.

Fitei surpreendida o local onde o Lycan se encontrava momentos antes, bem á minha
frente. A água do pequeno riacho não apresentava qualquer indicação de que tivessem
ocorrido movimentos recentes.

Não conseguia acreditar na perspectiva de tudo não ter passado de uma ilusão.
– Helena?

Suprimi um grito quando uma mão se depositou suavemente sobre o meu ombro.
Cambaleei assustada e virei-me com tudo, vendo Airon com o rosto surpreso e a mão
esticada como se o meu ombro ainda estivesse lá.

– Eu…desculpa se te assustei. – Murmurou com ar desnorteado. Suspirei profundamente
recompondo-me do susto.

– Não, eu é que peço desculpa – Disse rapidamente com o coração ainda a palpitar
loucamente – Estava distraída e nem te ouvi a chegar.

Airon sorriu.
– Ainda bem que te encontrei – Pronunciou num tom suave. – Precisava de falar
contigo.

Senti-me a enrubescer levemente. Cada vez que Airon me dirigia a palavra ou se
aproximava, ficava estranhamente tensa. Vi-o a respirar forçadamente antes de me fitar
com um olhar decidido.

– Há algum tempo que queria perguntar-te algo, mas nunca tinha tido ainda a
oportunidade de o fazer. – Sorriu ligeiramente – Se calhar porque é extremamente
complicado apanhar-te sozinha.

Sorri e tal gesto pareceu dar-lhe forças para continuar.
– Porquê que me evitas, Helena?

Senti o meu sorriso a desaparecer do rosto.
– Eu não te evito Airon.
– Mentira – Disse Airon, embora não fosse num tom acusador. – E tu sabes isso.

Desviei o olhar, nervosa. Sim evitava-o, mas não calculava que ele reparasse ou que
sequer se importasse com isso.

– Não pude deixar de notar que tu e a Leila ultimamente têm andado mais próximas. –
Continuou desta vez mais sério.

– Sim, é verdade – Respondi, estranhando o comentário.
– Esse é um facto que me preocupa.
Fitei-o confusa.
– Porquê?

Airon pareceu pela primeira vez, surpreendido.
– Tu não sabes?
– O quê?

Ele sorriu de um modo que indicava claramente o facto de não acreditar em mim.
– Nem desconfias da razão da Leila andar colada a ti ultimamente?

Franzi o cenho. Não me lembrava de Leila andar propriamente colada a mim, mas tinha
que admitir que talvez tivesse sido um pouco ingénua em nem sequer ter considerado a
hipótese de poder existir algum motivo em concreto para que a ruiva começasse do nada
a falar-me.

– Não – Respondi devagar, sentindo-me um tanto dececionada. – Mas obviamente que
tu sabes.

– Não sou só eu que sei – Disse Airon e riu-se de um modo constrangido –
Provavelmente a aldeia inteira também sabe.
Fez uma pausa.
– Até mesmo o Hastan, pelo que me parece. – Confidenciou um tanto temeroso.

Comecei a ficar inquieta. O que quer que fosse o assunto era claramente sobre mim e
pelo que Airon afirmava, andavam todos a falar sobre isso.
Suspirei incomodada com a situação.
Detestava ser o alvo de conversas.

– A Leila ouviu uma conversa que tive com o Leo há algum tempo atrás – Continuou
Airon – Mas não precisava sequer de a ter ouvido para chegar á conclusão que me
trouxe até aqui.

– Que conclusão? – Perguntei, nervosa.
Airon fitou-me diretamente.
– Que eu estou apaixonado por ti.

Fitei-o em choque. Subitamente parecia que vento tinha parado e as folhas das árvores
ondulavam agora suavemente no silêncio.

O rosto de Airon já não era envolvido pelo brilho do sol, e eu quase que podia ver o
meu próprio reflexo nos seus olhos cinzentos.

Senti o meu coração a tamborilar fortemente dentro do peito. Será que tinha ouvido
bem?

– Pensei que desconfiasses – Comentou Airon reparando com certeza na minha reação.
– Eu nunca fiz questão de o esconder. Muito menos de ti.

– Escuta, Airon… – Proferi com a voz a tremer, devido aos nervos. Era a primeira vez,
em toda a minha existência, que alguem se declarava a mim, o que fazia com que a
minha preparação para lidar com tal assunto, fosse inexistente. – Quero que saibas que
nunca tive intenção alguma de captar o teu interesse…

– Tarde demais. – Interrompeu-me Airon, gentilmente. Aproximou-se, fazendo-me
piscar os olhos nervosamente com a súbita diminuição da distância.

– Eu não posso. – Expliquei com um aperto na garganta. – A Leila…Ela…

Airon encarou-me, desiludido.
– Era disso que eu tinha medo.

– O quê?

– A Leila – Declarou e pela primeira vez desde que eu o conhecia, parecia de certa
forma revoltado. – Ela tem andado a encher-te a cabeça com histórias acerca de mim e
dela, não tem?

– Não – Neguei rapidamente, embora em parte fosse verdade. Mas eu não podia
condenar a Leila.

Mesmo que afinal a nossa amizade fosse baseada apenas num interesse dela.
– Eu não quero saber da Leila – Esclareceu Airon. Passou a mão pelos cabelos loiros-
escuros como para se acalmar e acrescentou – A Leila está iludida se pensa que vou
fazer a minha vida ao lado dela. Nunca senti nada por ela além de amizade.

Não lhe respondi. Após o choque inicial, a declaração de Airon tinha-me reavivado o
espirito de tal modo que por momentos tinha chegado mesmo a sentir euforia.

Mas agora que estava mais lúcida, conseguia entender o porquê de esta ter sido
subitamente substituída por um vazio.

O mundo tinha perdido o encantamento para mim, desde a morte do meu pai.
E eu sabia que ia manter-se assim durante muito tempo.

Talvez até para sempre.
Airon suspirou e a frustração ficou evidente em todo o seu rosto. Aproximou-se mais e
colocou as mãos nos meus ombros. Tive que erguer a cabeça para conseguir olhá-lo.
– Se o que te incomoda é o que as pessoas daqui pensam – Começou suavemente. –

Então vamos embora.
Arregalei os olhos e afastei-me automaticamente dele.
– Sair de Townsville?

– Sim.

– Tu farias isso?
– Por ti faria – Respondeu Airon com uma firmeza que me espantou. Seria possível que
ele gostasse assim tanto de mim, ao ponto de estar disposto a abandonar a terra onde
tinha nascido?
– Não podes estar a falar a sério.
– Estou.

Abanei veemente a cabeça. Townsville não era a minha casa, mas era provavelmente o
mais perto de um dia vir a assemelhar-se a tal.

– Desculpa… – Afastei-me, frustrada por a minha voz soar embargada. As palavras de
Airon de alguma forma tinham-me atingido mais do que desejava. – Mas tenho que
voltar. Para casa.

– O que eu sinto não vai mudar, Helena – Afirmou Airon. A certeza que a voz dele
transmitia, poderia ser capaz de mover montanhas. – Por isso pára de fugir de mim. Por
favor.

Fitei-o com a angústia a apertar-me a garganta.
– Eu não sinto o mesmo por ti, Airon.
Estava à espera de ver o impacto da rejeição marcada no seu rosto, mas enganei-me. A
expressão confiante de Airon não vacilou por um momento que fosse enquanto me
observava.

– Eu vou esperar que isso mude. – Anunciou seriamente. Reparei que os seus olhos
cinzentos já não me reflectiam.

– Não faças isso – Pedi-lhe, amargurada. – Porque eu não vou mudar de ideias.
E pela primeira vez, antes de me ir embora, vi a deceção a assombrar o seu rosto
atraente.

(excerto do livro A Bela e os Lobos)


RELACIONADOS




PELA WEB

Loading...