Biografia do acaso

Não sou escritor. Escrevo exclusivamente quando a escrita vem ao meu encontro.
Tenho uns bons anos na pele: suficientes para ter juízo – é o que me diz a minha querida mãe.

Nunca fui aluno catedrático. Licenciei-me em Línguas Modernas na Universidade de Coimbra. Faltou-me vontade de fazer a tese de mestrado. Depois de me licenciar, pouco se passou, apenas os anos sem que desse conta. Nunca tirei a carta de condução. Actualmente, sou professor de Português numa escola secundária. Tenho vergonha de dizer que ainda vivo com a minha mãe. Espalhados pelo meu quarto tenho romances esquecidos, páginas soltas, palavras por escrever. Tenho cinquenta e cinco anos cravados pelas rugas que tudo denunciam. Sou militante de um partido comunista.

Nunca casei nem tive filhos por opção. Lembro-me de poucas namoradas. O amor nunca foi muito à baila comigo. Ainda pensei em casar por tradição, ou simplesmente pela loucura que há em mim. Já fui dado como louco pelo meu próprio psicólogo por passar noites em branco com uma caneta na mão sem saber o que escrever. Escrever não é doença. É um dom. Um dom inato que, ao contrário de outros, muitos têm mas nem todos o encontram. Escrever é ir ao encontro. De mim.

Não temo a morte, temo o que lhe precede: a morte é certa.

Eu, que aprendi a viver de irresponsabilidades, que vivo de acasos,
amanhã morrerei.