A bagagem do passado

Dizem que quem vive de passado é museu. Mas todos nós vivemos do passado, aliás: todos nós somos um produto contrafeito proveniente do nosso passado.

Vivemos um dia atrás do outro na certeza um pouco incerta de que “desta vez vai ser diferente”. E quase sempre é. Mas como consegue alguém que já foi traído, manipulado e magoado, ultrapassar as cicatrizes que o passado deixou?

Todos nós tentamos seguir em frente com as nossas vidas, convencemo-nos de que o que passou ficou bem enterrado e tentamos amar de novas formas. Somos todos ligeiramente cínicos no que diz respeito ao amor. Não existe ninguém que entre numa relação nova de mente e coração abertos, ninguém tem 100% de certezas que desta vez vai tudo correr bem.

O passado é como um ferro quente que nos queima e deixa marca para toda a vida. É verdade que as cicatrizes podem ser disfarçadas, podemos facilmente tapá-las com uma tatuagem ou disfarçá-las com maquilhagem, mas ocultar uma cicatriz não a faz desaparecer. O passado está sempre presente, mesmo que exista uma tatuagem por cima dele.

Como podemos nós perdoar o passado, de forma a viver uma vida sem os demónios nas nossas costas? O medo da dor e da repetição consecutiva do passado é uma âncora. E neste caso não é uma âncora que nos prende num porto seguro, é apenas uma âncora que nos mantém à deriva num mar de inseguranças e de medos repetitivos.

Todos nós carregamos connosco a bagagem do passado, que nem sempre é fácil de deitar ao mar. E se quem vive de passado é museu, então todos nós somos belas peças de arte marcadas com cicatrizes profundas.