A vida não é justa …

Hoje dei por mim a pensar que a vida não é justa.

Olá, sou a Alice. Tenho 19 anos e já levei tanta porrada da vida que não tenho bem a certeza se ainda estou viva. Dizem que a vida é difícil e complicada, mas não é. Toda a vida se prende a uma pergunta básica: ” Vives?”.

-“Vives?”

-“Não sei…”

-“Não sabes como?!”

-“Pergunta a ele, ele levou-me com ele.”

É assustador como tudo se resume a viver. Até hoje só soube o que era viver no teu sorriso, no teu cheiro,na tua respiração e principalmente nos teus braços. Tu apenas te limitavas a respirar, pensavas, mas na verdade eras tu que me alimentavas. No dia em que te foste, simplesmente fui. Hoje, nem fui, nem vou, nem sou.

-“Quem és?”

– “Sou a Alice.”

– “Mas quem és tu na verdade?”

– “Não sou.”

Indeterminação.

Indeterminado foi também o nosso fim.  Fim, que belo eufemismo para o que nos aconteceu. Eu morri e tu sobreviveste, tão simples e iníquo.

-“Somos tudo o que tu quiseres, meu amor.”

-“Nada somos, o amor é meu.”

E tu foste, mais feliz que nunca, e eu fiquei mais morta do que sempre. A pior morte é aquela que nada diz, apenas sente. Talvez seja desta que na morte encontre alguma vida sem ser em ti.

-“És a morte da minha vida.”

-“Não, sou a vida que te proporciona a morte.”

Como é possível atrasares e acelerares algo que nunca tempo tem? Talvez controlassess o tempo, pelo menos a mim limitavas-me. Só espero que o tempo nunca te apanhe, pelo menos com vida.

Não é justo eu querer-te assim tão desesperadamente e, simultaneamente, apenas querer, desesperadamente, ser o empurrão que te leva ao precipício.

-“És o meu empurrão.”

-“Vamos empurrar juntos?”

-“Estou morto.”

-“Eu também.”

E até na morte, empurraram juntos.

Sou a Alice. Tenho 91 anos e morri a perdoar.

Na vida, nada é justo a não ser tu que deverias estar bem justo a mim.


PELA WEB

Loading...