Até um dia, meu amor!

Agora é a hora! A hora de escrever as últimas palavras que nunca poderei dizer-te e colocar um ponto final.

Adiei este momento, o mais que me foi permitido. Adiei este momento, desde que senti os teus olhares pousarem em mim, enquanto silenciosamente me diziam que ias embora, que chegara o fim da nossa história.

Adiei este momento, talvez, na esperança vã, de que por um mero acaso do destino, tu regressasses e os dedos não precisassem tremer furiosamente enquanto digito esta despedida.

O que mais custa a enfrentar são as madrugadas. Irei deitar nesta cama comprida e vazia, por infinitas madrugadas, com o calor da tua ausência. Até que um dia o meu coração dance de amor, de novo. Até lá, prosseguirei o meu caminho sozinha.

Não quero que outro alguém ocupe esta cama e se entranhe neste corpo que ainda é tão teu.

Não quero e não permitirei que os meus braços se acomodem no colo de outro, que não sejas tu.

Enquanto o amor que tenho, me preenche. Prometo ser fiel àquele que pulsa dentro de mim. Um dia (quiçá) quando me apaixonar outra vez, apagar-te-ei dos meus lençóis, embora, vislumbre esse dia, tão distante como os anos-luz a que se encontra o sol que pousa timidamente os seus raios sobre a minha pele, nesta tarde quente de Julho.

Julho. O nosso mês. O mês que nos roubou a vida. Quando amámos profundamente outro alguém, deixamos de viver. É involuntário. Não nos apercebemos sequer. Apenas tomámos consciência, quando o outro vai embora e precisamos recomeçar. Mas recomeçar o quê? Se não nos sobrou nada? O que haverá para perder, quando já perdemos tudo o que havia para ser perdido? Quantas estações já passaram por nós, sem que nos apercebêssemos das cores bonitas que deixámos passar?

Foste o meu primeiro amor. A minha mãe sempre me disse «é errado acreditarmos que o nosso primeiro amor será também o último», mas confesso que contigo, acreditei firmemente nessa incerteza. Acreditei, sobretudo, quando no frio do Inverno, seguravas as minhas mãos geladas para as aqueceres entre as tuas. E isso é amor. Eu sei. Mas nunca estivemos destinados a ficar juntos, e no entanto, seremos sempre, marcas indeléveis na vida, um do outro.

Meu amor, as madrugadas tem sido difíceis. Dou por mim a lacrimejar às quatro da manha sobre a tua fotografia, que adormece também comigo. Queria pedir-te para voltares que a cama ainda tem o teu lugar, e que o café ainda está quente, como tu gostas. Queria dizer-te que és tu quem eu procuro, desesperadamente, nos outros.

Estás entranhado no meu corpo, e pior do que estar sem ti, é não saber como te arrancar de mim. Não consigo sequer imaginar, amar outro sorriso, que não o teu. Não consigo sequer imaginar, deliciar-me com o toque de outros lábios, que não os teus, suaves como seda, e ridiculamente, perfeitos. A tua voz ecoa nos recônditos do meu ser, e eu sei, não serei capaz, de amar outra voz, como amei a tua.

Mas a vida segue. Então quero apenas que continues. Porque em mim, tudo é amor por ti. E eu acredito nesse amor: calmo e pacifico. E quero para ti o melhor. Quero que ames de novo. Quero que te apaixones, sem receios ou fantasmas passados. Quero que consigas um trabalho, que te complete, enquanto pessoa. Quero que tenhas aquele bebé que tanto desejaste. Serás um bom pai, eu sei. Quero que continues a acreditar no teu sonho louco de conhecer a Tailândia. Quero que te orgulhes do homem que és. Quero que encontres alguém, que te ame, tanto ou mais do que eu. Alguém que se esforce por merecer um lugar como tua mulher. Àquela que ainda te é estranha, mas chegará, eventualmente, diz-lhe que ela é uma mulher de sorte, por ser amada por ti.

Como tu disseste, certa vez, «se um dia um de nós, não estiver cá, o outro terá de ser forte o suficiente para continuar», sei que não era desta forma que deveria acontecer, mas que sejamos os dois, fortes o suficiente, para prosseguirmos a nossa jornada.

Lembra-te que, dessa ponta da praia, ainda me consegues avistar. Mas por uma razão qualquer, o destino (ou o que quer, que controle as nossas vidas) apenas não nos permitirá cruzar de novo as pegadas um do outro.

Foste a pessoa mais bonita com que a vida me presenteou. Foste o capítulo mais arrojado da minha história. Ficarás guardado em mim, para sempre, num lugar que te pertencerá eternamente. Desejo-te tudo o quanto desejo para mim, de melhor.

Despeço-me, com amor e saudade. Com vontade dos teus braços fortes enrolados na minha cintura e a tua respiração a soprar-me os cabelos compridos.

Até um dia, meu amor.

PORLetícia Brito
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