Até que te esqueça…

Não sei como apareceste, nem de onde, ou quando. E ainda bem que assim foi. As melhores surpresas são as que não perdem a denotação da palavra: algo inesperado.

Também não me recordo a quem pertenceu a ousadia, o primeiro contacto, ou as primeiras palavras. Parecendo que não, o primeiro contacto é sempre importante: ou nos atrai ou nos repulsa, como na teoria elementar do magnetismo. Foi isso que nos aconteceu. Quem provará o contrário? Ninguém.

Uma coisa tinha tenho eu a certeza: as tuas palavras vinham de longe, mais velozes que o tempo médio de reacção. Para ser preciso, cinco horas antes de escreveres o que quer que fosse, eu sabia o que era. Tu não. Tu demoravas cinco horas a saber o que eu te escrevia. Dois contratempos a anularem-se pela relatividade do nosso ser.

Sempre foi assim, onde quer que fosse. Sempre dependentes de um tempo de resposta. Nada acontece no mesmo e único instante, em dizimas diluições de tempo.

Costumávamos falar o dia inteiro. Depois, quando te deitavas, eu fazia o mesmo. Sem ti era tudo igual. Só que nada interessava. Depois adormecíamos. De vez em quando telefonava-te só para saber continuavas a respirar.Houve uma noite que não me atendeste. Foi uma noite longa. Quando se está longe tenta-se estar perto. O mais possível. O contrário também acontece. Só a distância nos garante que tenhamos saudades.

Quando não te ligava costumava procurar-te no meu profundo inconsciente, onde os desejos nascem. Dormíamos várias noites juntos, mas nunca acordavas ao meu lado. Existem coisas na vida que não se escolhem.

Habituei-me a imaginar-te à imagem que criei , a olhar para a tua fotografia todos os dias, a lembrar-me da tua voz ao telefone, a me encontrar contigo todas as noites, ou pelo menos procurar-te, junto das inúmeras vezes que me dizias «amo-te» com um delay de milésimos de segundo, suficientes para que por vezes tudo desvaneça. Habituei-me, fui forçado a isso.

Não te quero ver porque sei que, se te visse, tudo voltaria ao inicio. Prefiro estar assim, longe de ti. O que nasce à distância, só sobrevive à distância.
Há semanas que não te falo, talvez meses. São dias imperdoáveis. Deixas-me o mundo em testamento. Os dias por minha conta. O teu silêncio, que guardo no bolso. Uma fotografia na carteira e outra na memória. Uma fotografia é diferente de uma imagem: tem memória.

Passeio-te todos os dias. De noite deixo-te numa cómoda e procuro-te noutro lado. Estás sempre lá, no mesmo sítio. Até que te esqueça. Não sei como. Não há como. É esse o problema.

Escrevo porque te queria escrever. Porque ontem me procuraste. Porque me encontraste onde te disse, à tua espera. Sabia que voltavas. O que é verdadeiramente nosso volta a casa. Abracei-te com toda a força que tinha.

Restou a força do nosso amor, a mais persistente. Melhor do que as tuas palavras só a tua pele. A minha sobre a tua. Os teus olhos são outra coisa, algo diferente, uma arma, a que utilizaste para me raptar.

O nosso amor pode ser miragem. Tu não. Tu és cuidadosamente tu. Escapaste a um dos meus sonhos e chegaste até mim, sem convite nem porquê. Nos meus braços te espero.

Pecado meu, que me tornaste tão bom pecador, beija-me só um bocado, neste corpo tentado, à espera do teu amor


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