Até depois!

Ontem fiz-me à estrada e deixei-te para trás. Tanto que me custou partir. Segui pela noite, acompanhada pela lua cheia que me iluminou até casa. Toda ela brilhava mas eu não, por ter de ir embora dos teus braços. Não me caíram as lágrimas mas brilharam-me os olhos, os olhos sim, nada mais. Deixei-te para trás com saudade, saudade instantânea. Saudade imediata do teu beijar. Despedi-me apertada após o sentir como quem sente a vida. É isso, sentir-te é sentir a vida porque sem ti sou peixe fora de água, pássaro a quem lhe cortaram as asas, caneta sem tinta, livro sem palavras.

Ontem fiz-me à estrada e deixei-te para trás. Se soubesses o quão solitário ficou o meu caminho saberias que todos podem olhar pois para quem olho és tu, que posso estar em todos os lugares do mundo que continuo a ser tua. Tive de vir embora mas não disse adeus. Repara que não disse adeus, e pelo caminho que fiz reparei no traço continuo que me acompanhou e surgiste-me nos pensamentos. Surgiste na linha reta contínua, repara que não tem espaços a separá-la. Somos um traço continuo na estrada da vida, ou só na nossa estrada, então na nossa vida. Mas pisamos e transpomos, como quem dá tudo de si a quem faz o mesmo. E só não falo na transposição de posições, de gemidos e suspiros porque ninguém precisa de saber nem sequer imaginar, os milhões de segredos que quatro paredes guardam, que lençóis guardam, que pedaços de chão guardam, que espelhos reflectem mas guardam.

Ontem fiz-me à estrada e deixei-te para trás. Aprendi a amar-te quando nos demos oportunidade. Aprendi a amar-te quando nos sentimos. Agora sentimo-nos como a vida e eu tive de partir… Não caíste no esquecimento em tempo algum até ao lugar de destino, causaste até sorrisos, como causas tantas outras vezes, porque, se eu aprendi a amar-te e foi uma aprendizagem de tal modo calorosa, vibrante e alheia a infelicidades, inspirada em desencontros que tinham de dar num encontro furtivo, não posso deixar-te ir, e afinal, aprendeste o mesmo… Somos duas noites perigosas e cheias de sonhos. Podíamos ter pedido à lua que nos desse um amanhã sempre melhor que o hoje, sempre superior ao ontem. Desperdiçámos o pedido mas nos desperdiçaremos a nós pois embora não digamos nem ”sempre” nem ”nunca” (ou até digamos) terei de partir mas levo-te comigo a cada lugar que os meus pés pisarem. A vida segue e não espera por ninguém.

Deixei-te para trás mas por pouco tempo, não disse adeus, aprendi a amar-te e não abro mão disso. Vou ter de te deixar longe mas não para trás, terei de partir mas não de ti. Amo cada parte tua depois de o ter aprendido, quando se calhar já o fazia sem saber. Evoluímos, isso é certo.

Até depois. (Repara, não disse adeus, nem irei dizer, até ao fim.)

PORMarta, Alentejo
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