Até ao Fim… (a história de uma vítima de Bullying)

Sempre odiei ir à escola. Antes, era apenas porque detestava estar horas e horas numa cadeira a olhar para um quadro cujo conteúdo nada me dizia. Por vezes, esquecia-me dos óculos e nem conseguia ler as letras e números projetados à minha frente, mas também não me importava. Nem avisava a professora, pois gostava de tentar decifrar os símbolos, sem entender verdadeiramente o seu propósito.

Eu odiava a escola, desde sempre. Custava-me correr no recreio e sentir-me a abafar. Saber que seria sempre o último a ser escolhido para a equipa de futebol. Saber que não podia ir ao quadro sem ser gozado. Saber que não adiantava o que a minha mãe me preparasse de lanche que, no final, haveria sempre alguém que mo roubaria.

Conforme o tempo foi passando, as coisas agravavam-se. De um simples cachaço, passou a mais de 30 empurrões, com mais de 15 rapazes. De um simples insulto, passou a nomes odiosos, cheios de rancor, cheios de raiva.

Nunca consegui entender o porquê de cismarem comigo. Era por ser gordo? Por ter óculos? Por ter medo deles? Sim. Acho que a principal causa era o medo. Porque, por muito que não quisesse mostrar, não conseguia disfarçar o pavor dos momentos. Quando os ouvia, mesmo que fosse ao longe, um medo consumia-me por dentro, impedindo-me de respirar. E quase sempre me apanhavam, como se tivessem faro.

Um dia, a caminho de casa, estava tão entretido na minha música, que não os ouvi. Só quando um deles se cruzou no meu caminho, é que me apercebi que eram mais do que dez. Que me perseguiam. E que tinham arranjado o melhor momento para me apanharem.

Olhei à minha volta. Estava na parte mais descampada do meu trajeto. Aquele local que poucos eram os que se viam, os que se falavam.

Era final de tarde. Estava escuro e sombrio. Um daqueles finais de tarde frios, típicos de inverno. Ele disse-me alguma coisa. Eu não percebi, estava com tanto medo que nem conseguia ouvir as palavras a sair da boca dele, apenas ouvia o bater estrondoso do meu coração. Não pedi para ele repetir, pois imaginava o que tinha dito, imaginava a atrocidade das suas palavras.

Não demorou muito até me bater. Ele, e depois todos. Sentia os chutos na barriga, os tacos de basebol no meu crânio, ainda fechado, o meu peito a perder o ar. Senti o sangue a abandonar o meu corpo, aos poucos e poucos. Enquanto os meus olhos iam fechando, vi-os a fugir, a deixar-me ali, sozinho, a esvair-me em sangue. Não fechei os olhos quando morri. Recusei-me a fazê-lo, recusava-me morrer ali, sozinho. Não ia aceitar a minha morte, embora tenha acontecido.

Agora aqui, neste lugar onde me encontro, vejo-os, todos os dias. Passaram impunes, como seria de esperar. Os danos no meu corpo eram tantos que não havia quaisquer sinais de quem me tinha feito tal maldade. Nunca ninguém os viu. Nem aquelas senhoras que estava à janela, nem aquele taxista que passou junto ao passeio. Ninguém.

Agora aqui, observo-os. Diariamente. E vejo como nada mudou nas suas vidas. Como se nunca tivessem morto ninguém. Apenas arranjaram novas vitimas.


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