Asas Quebradas(?)

O meu maior vício quando descalça era, com os grãozinhos de areia entre os dedos, calcar aquelas pegadas velhas que as gaivotas iam desenhando na areia.

E que criaturinhas tontas me pareciam!

De onda em onda deixavam flutuar os seus pequenos corpos, sempre com aquela ânsia de roubar a sardinha das redes do pescador. Era, sem rodeios, um bicho estranho e nada sublime… e que voz estridente tinha! Só de o imaginar já me encolho com dores de cabeça. A verdade é que eu tão pouco sou rouxinol.

Seres ignorantes que jamais compreenderão a grandeza, que em suas costas carregam. Aquelas asas que tanto ambicionava!

As horas iam-se desprendendo dos dias…e eu cheguei a um momento de loucura pouco sã. Batia os braços com tamanha força ora tamanha majestosidade, mas o meu corpo não levitava. Desesperada trancava-me neste labirinto que ia tecendo em meu redor. Porque me deram tamanho vício, se o meu corpo é imperfeito para suportar tal droga? Que droga, queria tanto ter asas e voar alto, sobrevoar aquela imensidão de crepúsculo e com o vento a seduzir-me aos ouvidos, passar aquele horizonte que sempre me barra a visão, aprisionando-me em seus estereótipos desnecessários…

Tão pouco quero ser ave, apenas eu. Apenas quero ser eu no lugar onde pertenço. Quero conhecê-los todos, navegar por tudo aquilo que me dá medo e me vai impedindo de seguir adiante! Deixar definitivamente de ter medo do que desconheço.

Este vício era tão forte e tão mais desgastante do que aquele que tinha por malas e sapatos, talvez e por isso, nunca me tenha dado verdadeiramente por satisfeita e por consequente, passei a viver naquele areal ora tórrido ora gélido…

Não obstante, numa das loucuras dos loucos, duas sombras se encontraram e houve algo em mim que renasceu, o meu “eu “ interior deu sinais de si em mim… Ícaro era bem mais ousado do que eu…Eu desisti de beijar o sol ou de sobrevoar aquele gigante de águas salgadas…Seu pai bem o avisara que iria estragar as asas! Por minha vez, tomei a sua ousadia como minha. É que estava na hora de seguir esse vício e deixa-lo matar-me. Do vício renasceram as minhas asas. Peguei nas penas de gaivota que encontrava e mel roubei para as construir. Apelidei-as de “Liberdade”, já que me iam tirar daquele labirinto, libertando-me das filas e das rotinas humanas. Desgastada fiquei por tamanha tarefa, mas desta vez era um cansaço feliz. Então só poderia estar no caminho certo.

Ele arriscou, não colocou as coordenadas que seu pai lhe deu, e morreu. Não sei qual a sensação de voar tão próxima do sol. Será assim tão fabuloso visto ao pormenor? Eu, simplesmente não segui esse caminho. Queria tanto as ter que preferi passar os dias a contemplá-las.

Este meu vício deu entrada no sistema na Era do “quem sou eu?”

Nunca me senti verdadeiramente bem onde estava: o corpo ficava mas a alma voava!

E quem me fazia acreditar que a vida era assim, cortava-me as asas. Mas todos sabem que a alma voa sem asas!

Então, começaram-me a agarrar os pés. E aí devo confessar, que foi o que me fez acreditar que talvez aquela imensidão de céu, não era para mim.

Estava presa e acostumei-me. Os pés nunca pousaram o chão, contudo.

Suspensa sonhava, suspensa deixava a vida fluir.

Quem sabe agora, Deus não sei, se quando me largarem os pés as asas me abrirão!

Quem sabe se não terei medo de voltar a olhar para cima! E tal como ele arrisque a viver… Quem sabe se conseguirei voar e ir para onde o meu coração está…

No final, eu era só uma criatura estranha que adorava habitar aquela praia e cuja Mãe Natureza rejeitava, não a condeno, realço. Quem aceitaria uma criatura cujas suas asas não tinham sido beijadas por Deus?

Não olho o vício como um mau presságio, por vezes é a voz interior a gritar para que nos repensemos enquanto pessoas feitas de carne e osso. É importante entender o que nos colocou nesse estado de dependência pois essa é a chave que nos transporta para fora do labirinto. O poder do vício é tão só enquanto nós o somos. É humano e morre como um, por pressuposto. Todavia, a grandeza das obras que um viciado em amor esculpe, essas…Essas perdurarão pela perpetuidade das Eras! Se for um vício menos fabuloso como o álcool, o tabaco, o jogo… destrutivos serão, mas só enquanto o permitimos! Nada é eterno se não for beijado por Deus. As minhas asas não serão, mas como vos disse a alma voa sem elas!

Um dia as nossas sombras vão acordar e vão deixar que outra nos ressuscite. Vão-nos animar a agarrar as virtudes e a seguir com o sonho para além deste horizonte que nos teima em delimitar a nossa existência! Vamo-nos sentir livres e amados, porém devidamente avisados sobre os perigos da insanidade e isso já não nos chateará mais, essas regras e contrarregras*. Uma vez que, não há nada mais doloroso do que a incompreensão! Um homem louco não é um louco, é um ser que precisa de Ser compreendido tal como é, que precisa da outra metade para saber que está no caminho certo, mesmo que viciado.

*Consoante o novo acordo ortográfico.


RELACIONADOS




PELA WEB

Loading...