As sombras

O sol esventrava as nuvens, formando sombras no passeio.  Um pássaro, uma borboleta, um barco ou só uma imaginação extraordinariamente fértil.

Em conjunto com um plátano de ramagens ainda despidas, de um inverno mais longo, que pendiam sobre o verde cristalino da margem do lago, uma sombra sobressaía.

Ilustrava um busto, lembrando uma rainha egípcia. Começando pelo chapéu alto e cónico e terminando num queixo alongado próprio de uma Núbia.

E de uma sombra formada pela sequência de Fibonacci presente em toda a natureza, exponenciando o significado de perfeição, surgiu inesperadamente a imagem de Nefertiti na minha cabeça.

A minha Nefertiti, a rainha Núbia que retrata a beleza, carregando consigo a simbologia do ouro, refletindo os atributos da perfeição e brilho.

Mais uma vez os meus pensamentos percorriam o tempo  na esperança de conseguir formar os teus traços mas desta vez a partir de uma sombra.

Sabendo que a distância não era um aliado da saudade, o meu recurso à anamnese era frequente.

Voltar à realidade foi torturante, as sombras voltaram a ser sombras, os raios do sol voltaram a encandear e o vento pungente deixou de ser o motor da viagem atípica pelo mundo faraónico.

A minha Núbia voltou a ser um fogo ausente e eu voltei ao passeio do desalento da primavera tardia.

PORRafael Barata
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