As mulheres do leste também precisam de amor

Conheci-a numa noite imprevisível, daquelas em que nada parece acontecer, onde não existem expectativas. Para dizer a verdade, nem quis sair de casa nessa noite. Mas obrigaram-me: «se ele vier eu pago uma garrafa de champanhe para todos» – e lá fui eu, de rastos e ao colo, pela sede de todos.

A minha alma estava sóbria e os meus olhos continuavam míopes. Ainda assim lembro-me dela: a aproximar-se de mim, a esticar a mão, a pedir-me para dançar. É; em terras do leste europeu ainda se pede a mão para dançar, e o cavalheirismo ainda existe. Afinal parece que nem tudo na humanidade está perdido. O mal disto tudo é que teve logo de me pedir para dançar, quando mal sei coordenar os meus passos. Sou um analfabeto na dança. E talvez um bailarino na escrita. Deve ser isso. Segui-lhe os passos e os olhos verdes, sempre de mãos dadas. Uma pirueta, duas piruetas, três piruetas, e já estava zonzo e cansado. Depois sentámo-nos, para descansar, e para conversar. Ela falava, e eu pouco dizia.

Depois trocámos os nossos contactos. Depois, marcámos encontros. Depois ríamos juntos. Depois não aguentava sem falar com ela. Depois calei-me eu e beijei-a. Depois (ou talvez antes), apaixonei-me, só não sei quando.

Os cabelos longos sobre as costas, a sacudirem de um lado para o outro, como um relógio – e ti-tac, tic-tac -, e eu a ver, hipnotizado. E os olhos cada vez mais verdes ao sol. E os seios brutos. E o rabo firme. Tanta beleza pronta para  enganar.

E a mente – ó Deus, que pecado tão grande esse -, mais bela do que pernas esguias e os cabelos soltos. A mente pode ser perigosa. A beleza engana, mas a mente pode matar. Assim, de mansinho, como o predador se aproxima da presa.

Ela diz que eu sou a primeira pessoa que ela ama verdadeiramente. E eu não respondo porque é melhor. Ela não se importa, sabe onde mora o passado e prefere os meus braços às minhas promessas.

Uma vez ela disse-me: «Sabes, as mulheres do leste também precisam de amor. As mulheres do leste podem parecem ingénuas à beleza Ibérica, e muitas nem querem mais que uns beijinhos até ao pôr-do-sol, mas há algumas – mulheres verdadeiras – que anseiam, mais que uma boca quente, por uma mão cheia de bondade, de vontade, de coração. Estou tão farta deste desamor, sim – ouviste bem – deste desamor: as pessoas atam e desatam os corpos, enquanto a alma dá um nó cego. Estou habituada a homens fortes, mas de coração frio; há pouco carinho, há pouco interesse, há pouca ousadia e pouco tempo para romantismo. Sentimo-nos seguras, mas não nos sentimos bem. E é esse a vosso maior encanto: é esperarmos que por detrás do vosso olhar quente, esteja um coração igualmente fogoso. Lembra-te das mulheres do leste não pelo que tiveram, mas pelo que esperam de ti.»