Arrumar a “casa”

Há pessoas que ainda mal arrumaram a casa que existe dentro delas e mesmo assim, insistem em alojar lá um inquilino. Estão cheias de coisas ainda empacotadas, gavetas de recordações entreabertas e paredes sem cor. Por isso, se esse inquilino também traz com ele uma bagagem pouco arrumada, essa junção, de “união” nada terá. Estarão os dois tão “cheios” que nada consegue entrar. Têm que se esvaziar primeiro e cada um é que sabe de quanto tempo necessita para a sua “limpeza”.

Ou seja, só quando cada um tiver arrumado as suas gavetas e “desencaixotado” as suas coisas é que terá colocado a sua casa num “brinquinho”. Só depois de “arrumado/a”, surgem cores e espaço para ocupar com outras coisas e outra pessoa. Será essa, a altura certa para abrir novamente a porta a alguém.

Ao abrires a porta de novo, estás consciente que há gavetas que no presente já não custam a fechar porque foram limpas antes de outro/a entrar. Assim como será também nessa altura, que de livre arbítrio, cada um ajuda o outro a transportar a bagagem que leva. Uma bagagem que fez e faz de cada um aquilo que é. Uma bagagem de sentimentos, vivências, lutas e crescimento que contribuíram para a história daquele/a que o coração escolheu para viver dentro de nós.

Nos momentos em que optamos por estar sós, não quer dizer especificamente que estejamos isolados do que nos rodeia ou na “solidão”. Nesses momentos em que optamos por estar numa relação connosco, iniciamos um poema que nos irá acompanhar para o resto da vida. E só depois de apaixonados (sem narcisismos) pelo nosso “eu” saberemos reconhecer a pessoa que nos irá valer a pena amar. Teremos os sentidos mais apurados e seremos capazes de sentir, até de olhos fechados, a chegada desse alguém cujas caraterísticas rimam ou “fazem pandã” com as nossas. Iremos ouvir um alerta no nosso interior como que uma vontade louca (ao mesmo tempo que saudável) de provar essa pessoa. Um alerta que nos segreda que estamos prontos/as para lhe abrirmos as portas da nossa vida “sem fecho para o almoço”.

Quando isso acontecer será uma relação a quatro (nós e a marca pessoal de cada um). Vamos perceber, a dois, que nenhum terá que abrir mão da sua individualidade e toque pessoal. Afinal, foi isso que nos encantou. Então para quê “abrir mão” de algo tão valioso e que tanto acrescenta?

Quando surgir essa pessoa, a rádio estará sintonizada na mesma frequência que a nossa e será essa, a condição necessária para que não se coloquem as essências de lado.

No intervalo em que estamos “numa relação” com o nosso eu, aprendemos um pouco mais sobre nós. Nesse compasso de espera, olhamos à nossa volta e vemos que são tantos os que estão numa relação e infelizes. Infelizes por terem deixado de lado a sua marca pessoal. Infelizes, por terem aberto a porta quando ainda tinham tanto para conhecer sobre si mesmo. Talvez a tenham aberto cedo demais.

No amor, as pessoas moldam-se de livre vontade umas às outras e não, nunca se “anulam”.


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