Aprendi a amar-te de longe…

Já passaram dois anos. Dois anos, desde que perdeste o emprego e te viste obrigado a abandonar o nosso país. O país que nos apresentou um ao outro, o país onde nos apaixonamos um pelo outro, o país onde jurámos ficar juntos para sempre e onde nasceu a nossa razão de viver, o nosso Lucas. O mesmo país que te obrigou a abandonarnos, o país que nos obrigou a viver longe um do outro, a nós e a tantos outros casais. O mesmo país que me obrigou a aprender a amar-te de longe.

Dói-me saber que o Lucas já entrou para a escolinha e tu não estavas cá para o levarmos juntos, como tanto querias. Vou ensiná-lo a escrever a palavra Pai primeiro que Mãe, dizias-me tu quando ainda estava na minha barriga. Não o pudeste fazer, não to deixaram fazer. Mas eu fiz questão de lhe ensinar primeiro a palavra Pai, e fi-lo por ti, fi-lo por ele. Porque a palavra Mãe ele já irá usar muitas vezes, terá muito tempo de a aprender. Não quero que ele se esqueça de ti durante os longos meses em que não vens a casa e, por isso, pus um quadro de nós os três no seu quarto. Ele ouve a tua voz todos os dias pelo telefone, mas é uma criança, não tem noção dos milhares de quilómetros que separam os nossos corpos. Acho que isso é bom… não sei. Só sei que nunca na vida alguém te poderá fazer recuperar estes momentos com ele. Estes momentos que tentei viver por nós os dois, mas que senti nunca o conseguir. Sei que te dói muito e eu sinto essa dor como se fosse minha. Mas tudo ficará bem. Um dia, sei que voltarás para nossa casa, de vez. Teremos mais filhos e eu prometo deixar-te ensinar-lhes primeiro a palavra Pai. Também sei que não amarás o Lucas menos que qualquer um dos outros, e sei que sabes que ele nunca será mais meu do que teu, só porque passou mais tempo comigo. Tens um coração do tamanho do mundo, do nosso mundo, e isso deixa-me calma, tranquila, porque sei que estás longe mas o teu mais profundo desejo é o mesmo que o meu: estar aqui, do nosso lado.

Perguntam-me muitas vezes como eu lido com tudo isto, como é que eu vivo sem ti durante tanto tempo. Não tens necessidades? Necessidades? A minha necessidade é o meu marido, é o meu filho, e é o amor que ambos me dão, seja aqui ou do outro lado do mundo. Tive de aprender a encontrar amor numa chamada de telefone, tive que aprender a receber carinho de um ecrã de computador. Se eu vivia assim para sempre? Não sei, nem me interessa saber. Tenho esperança que um dia tudo mude, que é apenas uma questão de tempo. Acredito profundamente nisso e alimentome dessa esperança. Como é que confias nele? Confio porque sei o que tenho, sei quem escolhi para viver para sempre ao meu lado, sei a quem entreguei o meu ventre para fazer florir dele o ser mais maravilhoso que já vi. És parva, os homens são todos iguais, então deixem-nos ser. Eu vou continuar a acreditar que o meu é diferente.

Tenho-te longe, mas ainda te tenho, e isso conforta-me. Só quero que estejas bem, só quero que voltes para mim e para o Lucas, bem e depressa. O meu medo não é que vás embora… mas que não voltes. Tu foste a pessoa que escolhi, a família que escolhi, e por isso, se nada mudar, mudarei eu. Deixarei para trás o país que não nos quis juntos e começaremos tudo de novo. Talvez ainda irei a tempo de poderes ensinar a palavra Pai ao nosso Lucas… noutra língua. Que tudo se componha e que as forças e a esperança nunca me abandonem, porque parar pode ser morrer, mas esperar… é ir morrendo.

PORRaul Minh'alma
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