Ao irmão que nunca tive!

Fazes-me falta. Nesta falta que me fazes, sinto o vazio da tua ausência, da solidão em que cresci por não estares aqui. Gostava de poder ver o mundo tal como ele seria se fizesses parte da minha vida: completo, cheio e pleno. Sinto que sem ti só vejo o mundo pela metade. Não vejo o mundo da mesma forma, com os mesmos detalhes, com as mesmas definições e convicções. Não tem as mesmas pessoas, as mesmas cores, os mesmos sons, os mesmos aromas: a mesma voz.

Falo de ti e para ti porque sempre quis ter um irmão, não me importaria se fosse uma irmã; mas os irmãos parecem ser mais feitos de sabedoria e independência.

Fazes-me (tanta) falta. Faz-me falta a cumplicidade inabalável de irmãos. Fazem-me falta as brigas de irmãos: ter sempre alguém com quem implicar a toda a hora, a luta pelos mesmos brinquedos, pelo mesmo lugar à mesa, pelos pratos de comida favoritos, pelos programas de televisão, pelo lugar na cama e pela história que a mãe vai contar todas as noites para adormecermos. Faz-me falta aquele abraço de irmãos e um pouco se desassossego cá em casa. Faz-me falta que alguém como tu tivesse crescido comigo para estar ao meu lado no caminho para a escola e para me ensinar a ser mais forte, mais guerreira e lutadora nas dificuldades da vida e nos obstáculos interpostos pelos outros. Sabes como as pessoas são: crescemos a cruzar-nos com pessoas que para além não de nos encherem as medidas, nos desiludem, nos magoam e na grande maioria das vezes nos entristecem para o resto da vida. É algo que faz parte de sermos pessoas, à medida que evoluímos vamos aprendendo a conhecer e a fazer melhores escolhas. Faz-me falta alguém como tu para me olhar serenamente nos olhos com aquela ternura de duas almas que sabem tudo de cor e me oferecer um sorriso inesperado, familiar, meigo e acolhedor.

Jogo à bola com o vento, faço desenhos com a chuva e jogo às cartas com o sol no terraço cá de casa. Faz-me falta aquele pedaço de vida que só os irmãos têm. Faz-me falta ter companhia e ter-te a ti. Faz-me falta o teu apoio e aconchego nos momentos duros, a tua felicidade nas conquistas e vitórias. A simples partilha de momentos e de gargalhadas.

Fazem-me falta as longas e assertivas conversas sem segredos, sem receios e sem medos, em que pomos tudo a nu. Sem perguntas e sem julgamentos. Fazem-me falta os bons conselhos dos ditos irmãos mais velhos, há uma grande diferença entre os conselhos dados pelos pais e os conselhos dados pelos irmãos mais velhos, são mais experientes, mais cuidadosos, mais atenciosos e conseguem sempre convencer-nos a seguir o caminho mais certo.

Gostava de ter alguém ao meu lado que me elogiasse mais e me criticasse menos, que me ajudasse a corrigir os meus erros sem me fazer sentir pequena, que partilhasse comigo o balde das pipocas e juntos o entornássemos no sofá para depois a mãe se zangar connosco e desatarmos a rir como dois loucos. Que ouvisse o mesmo tipo de música e visse os mesmos filmes.

Que ouvisse os meus desabafos sem me questionar, os pormenores do meu dia e as novidades e que soubesse partilhar do meu entusiasmo e felicidade perante vitórias e conquistas. Que me convidasse para uma saída nocturna de irmãos, com os grupos de amigos e prolongássemos o que nos une: as fortes ligações e tudo aquilo que somos e seremos para a vida.

Ter um irmão mais velho é ter um espaço dentro de nós sempre ocupado no tempo. É ter alguém do nosso lado que raramente nos falha, que nos enaltece e nos amadurece. É despedir a solidão e aquecer o coração.

PORAna Ribeiro
FONTEEscreviver
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